Ella instou por saber o motivo da exclamação involuntaria. Contentei-a dizendo-lhe que as francezas não podiam afazer-se á vida campestre; a que, a final, a snr.ª viscondessa viria a ficar sem o sobrinho, por a esposa lh'o arrebatar para França.

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Planeou-se uma visita ao Palacio de crystal, no Porto. A «viscondessa» nunca tinha visto aquella bonita cousa. Eu tambem fui convidado.

Mandou-se fazer o jantar no restaurante do palacio.

Quando estavamos á mesa, e nas alturas da lingua grelhada, entrou um grupo de francezes, rapazes esturdios, de cachimbo de espuma, e rosa de Alexandria na lapella. Um d'elles, olhando a fito mademoiselle de Carvalho, estacou; e ella, que de relance o vira, purpurejou-se até aos lobulos das orelhas. Alvaro Cordeiro não foi estranho a esta scena muda, por quanto, guinando entre os dous a vista inquieta, empallidecera.

Os francezes abancaram gargalhando e proferindo phrases que eu não entendi. Apenas sentados, estralaram as rolhas do champagne, e a vozeria gralheava em chascos faceis de perceber nos olhares esconsos que dardejavam ao nosso grupo.

Alvaro, antes de concluido o jantar, pediu a conta. Observou-lhe a tia que a sobremesa ainda não tinha chegado, e que ella queria pudim de laranja e o seu chá.

N'este comenos, um dos francezes, galante rapaz, ergue-se da mesa, vem defronte de nós com um copo de vinho, e solta uma trovoada de palavras, com um ar mixto de zombaria e seriedade, as quaes eu, ignorante da lingua franceza, quando francezes a fallam, não percebi; mas as ultimas proferidas muito de espaço, entendi claramente: A ta santé, Cora Pearl! Je felicite le beau Portugal et le beau portugais! Voilà un bijou de la corruption française que leur y manquait!

--E Alvaro que fez?--atalhei eu.

--Alvaro que fez? o que eu fiz. Olhou para o francez como se elle estivesse representando um monologo. Lá na mesa d'elles as gargalhadas eram estridentes...