[BIBLIOGRAPHIA]
(Pedro Ivo--Pedro de Amorim Vianna--Alberto Pimentel--Visconde de Castilho--Pinho Leal).
Pedro Ivo. Contos. Porto, 1874.--Formoso livro! Dir-se-hia que Julio Diniz, o viajor eterno das regiões luminosas, deixou na intelligencia e no coração dos que mais de perto o conheceram e amaram, as serenas imagens das suas visões, as maviosas figuras dos seus quadros, a suave indulgencia e conformidade com que elle florejava de nenuphares os pantanos da vida.
Quando eu li alguns d'estes contos no Commercio do Porto, e lhes não conhecia author, nem acreditava na authenticidade de Pedro Ivo, disse sempre commigo: «É a continuação do gentil espirito de Gomes Coelho. Ha de haver muita gente que passe inadvertidamente por estes graciosos romancinhos, reveladores de poderosa vocação; porém, quando o author chegar á meridiana da sua gloria, estes contos--aurora d'um dia esplendido--serão relidos com renovado prazer.»
Reli hoje os que já lêra, e os que vem de primeira mão no livro. No correr aprazivel da leitura, quando senti o alvoroço das lagrimas, ao passo que as paginas commoventes eram singelissimas, saudei o amavel romancista, e dei-lhe o culto sincero e raro da minha admiração, como daria um beijo na face de meu filho, se elle um dia legitimasse a minha vaidade de pai com um livro d'este valor. Invejo estas santas alegrias ao snr. José Carlos Lopes.
Memorias de M.me Lafarge, traducção de Pedro de Amorim Vianna, com um estudo moral ácerca da authora, escripto pelo traductor. Porto, 1874. 2 tom.--Ouço dizer que a sciencia do snr. Amorim Vianna se prolonga até ás fronteiras do hebraico. O que elle desconhece em linguistica é os idiomas francez e portuguez. Isto, porém, não impede que o digno professor de mathematica saiba tudo mais. Eu duvidaria da anthenticidade do traductor, se o estylo do Estudo não apparelhasse tão consoante com o da versão: tamanha é a disparidade de um nome celebrado nas letras com esses dous volumes imperdoaveis a um alumno de lingua franceza.
Versão e Estudo ajoujam-se frizantemente. Quanto á primeira, se algum incredulo me quizer obrigar pela palavra, demonstrarei que rara é a pagina em que os erros não orcem pelas linhas,--erros de interpretação franceza e de grammatica portugueza.
M.me Lafarge escrevia com a sublimidade e correcção classica de Jules Janin. Desfigurada pelo traductor, dir-se-ha que a franceza escrevia francez como o snr. Amorim escreve portuguez.