Pelo que respeita ao presumido Estudo moral, o que d'ahi se deprehende é que Lafarge foi ladra e envenenadora porque lia romances. O snr. Amorim, no processo de seu estirado estudo, revela farta leitura de romances; e todavia, os seus costumes são exemplares, penso eu. Verdade é que o insigne professor declara que Méry lhe faz nauseas, e que a reputação de Balzac se deve á corrupção do seculo, ao rebaixamento dos espiritos, e desfalecimento dos brios no publico (pag. 176). E que Balzac se fanatisou pelo crime desenhando-o com o nome de Vautrin, etc. Conta que Lafarge tivera mil pretendentes á sua mão depois de condemnada e presa; e explica este fanatismo por ser ella o producto das más paixões da época.

Se Méry faz nauseas ao snr. Pedro de Amorim, quer-me parece que o author da Guerra do Nizam, não preferiria o perfume... litterario do snr. Amorim aos aromas das florestas indianas. Balzac, posto em pedestal de corrupção para ser admirado, é um deploravel paradoxo que eu teria pejo de vêr na minha lingua, se o snr. Amorim Vianna escrevesse lusitanamente. Que, ao menos, estes absurdos se não possam tirar a limpo d'entre locuções mascavadas.

Que Lafarge tivesse mil pretendentes á sua mão, porque era mau producto das más paixões da época, é phantasia do snr. Amorim. Um ou outro poeta lhe fez versos, sem lhe pedir a mão; houve um enthusiasta que lhe propoz a fuga do carcere; e presume-se que um dos seus advogados casaria com ella, provada a sua innocencia, que esteve indecisa entre a ignorancia de tres medicos e a sciencia de Orphila.

Isto sommado não dá mil pretendentes; não chegamos sequer a liquidar um. A estas hyperboles são atreitos os sabios enfronhados na derramada florecencia dos idiomas do Oriente.

Por concomitancia de crimes, o snr. Amorim lembra-se da virtuosa duqueza de Praslin assassinada pelo marido. Espanta-se das nobilissimas cartas da duqueza, em que brilham elevados sentimentos de amor conjugal, e acrescenta: Custa a crêr que em classe tão depravada se dê tão grande virtude; que uma fidalga possa escrever com tanta alma.

O cheiro de inepcia, que recende d'este dizer, chega a despontar a iniquidade da injuria. Uma fidalga a escrever honrados sentimentos de esposa e mãi é cousa que não lhe entra na democracia do snr. Amorim. Vamos vêr d'onde vem ao figado do professor estes extravasamentos de succo bilioso contra a classe heraldica.

Derivando nas torrenciaes enchentes da corrupção de França, o snr. Amorim poja nas praias portuenses, e acha isto cá peor; clama contra os escandalos d'esta cidade, e nomeia-os para se não parecer com Jeremias e com os outros que iam botar discursos vagos debaixo dos muros de Jerusalem e Ninive.

Dá pregão de que um sujeito, acompanhado de outros de boas familias, perpetrára um rapto; que o juiz indecentemente os não condemnou; que a mãi da raptada, movida por sentimentos de christã, perdoára ao raptor, cuja mãi afflicta lhe pedia a liberdade do filho. Assenta que estes dous sentimentos santos, em tal caso, tinham alguma cousa impia; e, em summa, que os réos deviam ser condemnados, a despeito das lagrimas de uma, e do perdão da outra mãi.

Averiguado o rastilho d'este velho odio, apura-se que o snr. Amorim ainda não pôde perdoar aos cumplices do raptor, porque um dia, na sua aula, o desauthoraram.

Depois, descamba para a vida particular do raptor, e narra com a mais rustica indelicadeza a miseranda catastrophe que abriu uma sepultura, sobre a qual a caridade e a justiça estendem o seu manto misericordioso.