Os adros e cemiterios ruraes tem uma grade que defende o ingresso aos esfossadores de sepulturas. Não se podem levar estes empeços a todos os remexedores de cinzas, que são o residuo de enormes incendios, cinzas sagradas pelas dôres que as reduziram a isso.
O snr. Amorim espanta-se que Vieira de Castro ainda depois de morto conserve o favor popular.
Ás doridas paginas que se escreveram a favor d'esse grande infeliz, chama o snr. Amorim, lôas. E cita ao proposito as jogralidades do Puff de Scribe, e diz que a unica moeda corrente é a da peta.
Impropera de consciencia larga o eminente orador, porque elle elevou ao pinaculo da virtude um homem rico, só porque se mostrou caridoso depois de morto. Todos applaudiram o panegyrico e com tudo ninguem ignorava a vida do elogiado.
Allude ao conde de Ferreira. Isto quando não seja indecencia, é ingratidão. O snr. Amorim Vianna devia lembrar-se que, sem o legado do conde de Ferreira, não se estaria a esta hora martellando no hospital de alienados na Cruz da Regaleira. E eu, á vista do exposto, receio que o author do Estudo moral ácerca da Lafarge esteja no caso, como outros mais sisudos, de aproveitar os favores d'aquelle estabelecimento.
O Livro das flôres (legendas da vida da rainha santa), por Alberto Pimentel. Lisboa, 1874.--Não é livro para mysticos peculiarmente. É um ramilhete de lendas mais formosas que authenticas enfeitando paginas de historia vernaculamente escriptas. Guiou-se da mão dos chronistas o snr. Pimentel; porém, quando as moutas das flôres lhe esmaltavam o caminho, parava a colhel-as, e tecia com ellas nova corôa á memoria da dulcissima rainha, mensageira do céo, entre inimigos descaroados. Lê-se muito a sabôr este livro, e aproveitam-se na leitura, como estudo, os lances capitaes do reinado de D. Diniz, e a selecta linguagem respigada entre as rudezas das chronicas antigas.
O snr. Alberto Pimentel sabe a sua lingua como raros, e ha de escrevel-a com primor dos que melhormente a sabem, e de quem vamos aprendendo todos os que não viemos a este mundo com fadario de burros, não desfazendo em ninguem.
Theatro de Molière. Quinta tentativa. O Misanthropo, comedia em 5 actos, versão liberrima, pelo snr. Visconde de Castilho. Lisboa, 1874.--Ainda não pude affazer-me á convenção de que estou lendo Molière quando estudo estas chamadas versões liberrimas. Seria preciso que, a intervallos, o torneio da dicção peregrina, a allusão ethnographica, o particular relevo da nacionalidade franceza me trasladasse ao tempo de Luiz XIV e ao meio das condições especiaes de vida em que Molière photographou os seus grupos. Estas mui de siso chamadas nacionalisações renovam-se tão portuguezas do fecundante engenho do nosso poeta, derivam tão affins da graça e donaire lusitanos de Gil Vicente, Ferreira e Antonio Prestes, que não posso interpor aos antigos mestres e ao mestre, em que todos os passados rebrilham, a inspiração forasteira de Molière.