O Misanthropo é outro livro que o snr. visconde enfileira na bibliotheca das nossas riquezas litterarias. Estes cinco dramas hão de crear maior numero de affectos e affeiçoados á lingua patria que toda a grave e ponderosa communidade de classicos, inculcados nas chrestomathias. Não havia meio de amaciar as asperezas do estudo da lingua, senão este de offerecer á juventude negligente o fructo em cabaz de flôres.

Depois de Molière, o valente pulso de Castilho vai medir-se com o formidavel Shakspeare. O Sonho d'uma noite de S. João, editorado pela activissima casa Chardron, já está no prelo. Seguir-se-ha A tempestade. Seguir-se-hão as juvenis glorias de um talento que reflorece cada anno afim de que o cantor da Primavera não sinta na quadra final que um anno lhe passou sem flôres. Abençoado sejas da posteridade com o amor que te consagram os teus discipulos, mestre generoso que tanto mais nos amas quanto nos liberalisas as riquezas do teu espirito!


Portugal antigo e moderno, diccionario heraldico, geographico, estatistico, chorographico, archeologico, historico, biographico e etymologico, etc., por Augusto Soares de Azevedo Barbosa de Pinho Leal. Lisboa, 1874.--Estão publicados dous tomos e algumas cadernetas, abrangendo as letras A--F. As pessoas que estudam e avaliam a natureza do trabalho arido e ingrato a que o snr. Pinho Leal dedicou o maior numero dos seus annos, sabem aquilatar o merito d'aquella obra de tamanho fôlego. Para essas pessoas as imperfeições de tal escripto não lhe desluzem o merito nem esfriam o reconhecimento que se lhe deve. Quem compulsou as obras do mesmo genero anteriormente publicadas e apreciadissimas no mercado, agradece ao laborioso archeologo a grande melhoria do seu trabalho, e ao benemerito editor o alento raro com que o tirou a lume. Já vi arguido o snr. Leal de inexacto em miudezas topographicas, sem lhe descontarem que elle aceitou as noticias divulgadas em livros que os censores não haviam previamente corrigido com a sua esclarecida censura. Com toda a certeza, o meu amigo Joaquim Martins de Carvalho conhece as cousas antigas e hodiernas de Coimbra mais de fundamento que o snr. Pinho Leal; mas seria impertinente exigencia obrigar um chorographo a jornadear muito de espaço nas terras que descreve para convencer-se de que as descripções que o precederam e guiam eram menos exactas. O que é de todo o ponto certo é que eu tenho consultado com aproveitamento o Diccionario do snr. Pinho Leal em variados pontos da sua ampla area. Não sei de outro armazem onde tão variadas noticias se encelleirem, e tão de prompto se deparem ainda aos mais versados. Com muita satisfação me glorio de ter cooperado com o meu sincero voto para a editoração d'esta obra subsidaria de todos os estudos respeitantes á historia, á geographia e ás antiguidades de Portugal. Quem, depois, do infatigavel author d'estes livros, escrever outros com mais primorosa penna, tem de constituir-se em divida e gratidão immensa ao snr. Pinho Leal que está carreando as achêgas para o futuro edificio. Duvido, porém, que n'este paiz em que um livro de 300 paginas representa o supremo esforço da nossa indole preguiçosa, haja quem immole trinta annos de sua existencia, e os bens do seu patrimonio, a um lavor que nas demasias do seu zelo, a critica desconceitua. Deixam-se correr desafogadamente quantas parvoiçadas soltas e rimadas por ahi coriscam de cerebros borrascosos; porém, se um escriptor de indefessa lida concorre ao mercado das frandulagens com os seus suados e tressuados livros, topa logo pela frente o vigilante piquete dos sabios, que só n'estes lances sahem da tenda, como Achilles. Cumpre-me declarar que tenho a maior consideração pelas correcções do snr. Martins de Carvalho, quanto á topographia de Coimbra; mas não a tenho menor pelas improbas fadigas do snr. Pinho Leal com cuja amizade me honro e desvaneço.


[PARA A HISTORIA DE D. JOÃO IV]

(DOCUMENTO INEDITO)

É notorio que o infante D. Duarte de Bragança, que em 1640 militava no exercito de Fernando III, imperador da Austria, foi traiçoeiramente preso a instancias de Francisco de Mello, seu parente, portuguez, e embaixador de Castella em Vienna.

Uns historiadores dizem que seu irmão D. João IV se inquietára quasi nada com a prisão do infante; outros, mais exactos, asseveram que o rei alguns esforços empregou para o libertar. Isto é verdade; mas os esforços eram tão diplomaticamente frouxos que, vistos á luz da sã razão e da boa politica, os historiadores que negam parece ganharem a partida aos historiadores que affirmam a solicitude de D. João IV.

O infante estava preso na roqueta da torre de Milão, encadeado de modo que nem sequer podia adormecer, quando o rei de Portugal, mediante o seu embaixador em França, pedia, em 1643, á regente Anna d'Austria, na menoridade de Luiz XIV, solicitando de sua magestade christianissima a liberdade do infante D. Duarte em troca de alguns importantes prisioneiros castelhanos que o governo francez tinha a bom recado.