Ahi está a arrojada tentativa que fazia o rei de Portugal no resgate de seu irmão:--requer a uma nação alliada que arranjasse lá isso, desfazendo-se dos seus prisioneiros, em escambo de um principe, que, ao parecer de João IV, valeria tanto como dous ou tres hespanhoes aprisionados em batalha!
E, ao mesmo tempo, pedia emprestado dinheiro á França, como se uma só prova de pusillanimidade bastasse a enrilecel-o no conceito do cardeal Mazarin, e solicitava ainda que o governo francez lhe protegesse o bispo de Lamego, em Roma, e lhe restituisse integralmente o dominio da ilha de S. Lourenço (Madagascar) onde os francezes, em 1642, se tinham estabelecido com feitorias[2]. Eis a resposta dada por Chavigni, um dos plenipotenciarios que trataram com o embaixador portuguez[3]:
RESPOSTA ÁS MEMORIAS DO EMBAIXADOR DE PORTUGAL (versão)
El-rei se fará informar particularmente do negocio da ilha de S. Lourenço para tomar tal resolução qual convenha á amizade e alliança que ha entre sua magestade e el-rei de Portugal.
Sua magestade seria contentissimo em poder contribuir segundo sua affeição para com el-rei de Portugal, no livramento do infante D. Duarte seu irmão, mas pelo que toca á troca que elle fez propor dos prisioneiros dos inimigos para em lugar do dito infante, roga a vossa magestade que considere que os inimigos tem tambem francezes entre suas mãos, e que todos os dias a fortuna da guerra póde fazer cahir outros, os quaes não podem sahir senão por uma tal troca; que sua magestade é obrigado a os conservar e grangear a fim de que elles se empreguem mais animosamente em o serviço de sua magestade e em adiantamentos de causa commum; elle fará, com tudo, tudo aquillo que depender do seu poder pela liberdade do infante D. Duarte, ao qual não tem elle menos affeição que el-rei de Portugal mesmo[4].
El-rei fez despezas tão excessivas para o entretenimento de seus exercitos, tanto de mar como de terra, e por assistir a seus alliados, segundo os tratados que lhe havia parecido bem fazer com elles por lhes dar tanto mais de meios para se esforçarem poderosamente pelo bem publico e causa commum, que sua magestade teria antes necessidade de ser alliviado de taes despezas que de se empenhar em outras novas, o que a elle lhe é totalmente impossivel; de sorte que tem grande desprazer de não poder ajudar de dinheiro ou mesmo de emprestimo a el-rei de Portugal, como fizera de bonissimo coração, se o estado dos seus negócios lh'o permittira.
Sua magestade dá ordem á esquadra dos seus navios na Arrochela de tomar ao snr. bispo de Lamego, embaixador de el-rei de Portugal, vindo de Roma para o levar...[5]
Pelo que toca ás bandeiras dos navios reaes e mercadores em os portos de França e de Portugal, este negocio se remetteu ao conselho de marinha, e as Memorias se podem metter em mãos do snr. Habrgue (?) com o qual se póde tambem conferir aquelle da ilha de S. Lourenço. Feita em Paris a 21 de março de 1643.==Chavigni.
O infante D. Duarte de Bragança morreu, ao cabo de oito annos de prisão, algemado como facinoroso, em um antro destinado aos supremos criminosos.