«As (obras) que ficaram manuscriptas passaram, depois do seu fallecimento (1655), juntamente com a sua copiosa e escolhida livraria a enriquecer outra, ainda mais abundante e numerosa, qual era em Lisboa a do conde de Vimieiro, riquissimo thesouro litterario que foi como tantos outros reduzido a cinzas pelo incendio subsequente ao terremoto de 1755.» (Dicc. bibliog., tom. VI, pag. 106).

Alguns traslados de pouquissimos ineditos de Severim vieram á minha mão com os manuscriptos do jurisconsulto Pereira e Sousa. Os caracteres são coévos do sabio antiquario; mas a pessima orthographia accusa traslado de mão imperita. Não obstante, como as idéas não padeceram com a ignorancia do copista, dou afoutamente esta copia corrigida orthographicamente. É documento historico, além de these engenhosamente concertada; por onde se deprehende que o desbarato de D. Sebastião e da flôr da fidalguia em Africa redundou em beneficio de Portugal.

Senão, vejam:

«Observações dos males que Deus permittiu para bem de Portugal, escriptos e expostos pelo chantre da cidade de Evora, Manoel Severim de Faria. Em 20 de setembro de 1649.

«Permittiu Deus que se perdesse el-rei D. Sebastião, e ficasse toda a fidalguia portugueza captiva de mouros, porque estando os portuguezes muito soberbos com as victorias que houveram por todas as partes do mundo, não as reconheciam já a Deus; mas cuidavam que eram alcançadas só por seu valor. Castigou Deus esta soberba com aquelle miseravel captiveiro, e depois com a entrada dos castelhanos, que conhecendo nós pela experiencia que as victorias que alcançavamos, não era por nossa fortaleza, senão pela misericordia de Deus, nos humilhassemos e fossemos exemplo ao mundo d'este conhecimento, e ficassemos capazes de receber outra vez o reino e a liberdade da sua divina mão.

«Permittiu Deus que o conde de Vimioso, D. Francisco, perdesse a vida e a casa defendendo a liberdade de Portugal, e que o conde de Basto e o marquez de Castello Rodrigo ganhassem estes titulos entregando o mesmo reino; e ordenou depois, que as casas de Basto e Castello Rodrigo se perdessem, e a de Vimioso se restaurasse pela mesma valia do conde de Basto, que casou sua filha com D. Luiz, e pela fazenda de Castello Rodrigo, que casou outra filha com o conde D. Affonso, para mostrar a todos com tão raros exemplos, que os que fazem o que não devem, cuidando ganhar para seus filhos, os deixam perdidos, e os que fazem o que devem ainda que de presente padeçam, não deixam seus filhos desamparados, antes acrescentados na opinião dos homens e na protecção divina.

«Permittiu a guerra dos hollandezes, no Brazil, para haver capitulações e soldados praticos n'este reino, que soubessem pelejar contra a milicia dos castelhanos.

«Permittia que obrigassem aos senhores portugueses a dar soldados para Catalunha, para que tornassem a Portugal praticos depois da acclamação, e isto em tanto numero que por conta tem entrado em Portugal, de Castella e Flandres quasi seis mil homens de guerra.

«Permittiu o escrever das fazendas (cadarso), para que com essa occasião se levantassem os de Evora, e entendessem os castelhanos que cá em Evora, havia dez mil homens armados sem a nobreza do reino, e por isso mandavam que sua milicia não passasse de Badajoz e tiveram por felicidade a reducção.

«Permittiu que chamasse el-rei de Castella todos os grandes e fidalgos a Madrid para com isso ficarem só em Portugal os que haviam de acclamar a liberdade, estando ausentes os que lhe haviam de resistir, principalmente todos os senhores, que por entregarem Portugal, alcançavam titulos de el-rei de Castella.