Inventou a conspiração de 1817.
Presentiu o desgosto profundo que ia no povo, apoiou-se nos maus instinctos, e na perfida politica do regulo da Grã-Bretanha, revolveu, com a sua abjecta espionagem, as ultimas camadas da plebe, escutou e deu vida a todas as invejas, a todos os odios, e a todas as ruins paixões, que fermentam sempre no coração de todos os intrigantes, e de todos estes reptis immundos e repugnantes, que se criam e desenvolvem n'este torrão luxuriante e vivificador. Aqui, como nos juncaes e densas selvas dos tropicos, existem, com face humana, o tigre real de Bengala, a vibora dos pantanos do Indostão, a hyena das margens do Ganges, a mosca venenosa dos tremedaes e terrenos paludosos da Zambezia, e os cascaveis hediondos das florestas da America, ao lado das virgens mais puras das creações do budhismo. Estas regiões, que vivem em maior contacto com o nosso astro supremo, mais aquecidas pelo sol, não admittem, nem consentem transições. Cortam bruscamente os crepusculos--não teem longos esvaimentos de luz--não desenham penumbras. Quando o sol se immerge no oceano adensam-se rapidamente as trevas.
Onde não ha a nobreza do sentimento, o estimulo das mais nobres aspirações, e o exemplo tocante da mais completa abnegação--é porque as sombras do cynismo se espalharam sobre a intelligencia do homem, é porque a ignorancia e os maus instinctos sepultaram, e apagaram a luz viva, o facho ardente, a idéa primordial, que vinha irrompendo na alma humana; e a consciencia do individuo, o senso moral confundem-se nas trevas, que escondem para todo o sempre estes arreboes divinos do ente creado.
Assim foi, e assim será sempre.
O tenente-general Gomes Freire de Andrade era a synthese d'estes soffrimentos, que minavam todos os membros corroidos da nação. Era o alvo de todas as invejas. Era a voz da patria, n'este estertor em que se debatia, e agonisava um povo inteiro. Por isso foi o martyr. Parecia, talvez, que, ao torturarem aquella alma nobilissima e generosa, Portugal ficaria sujeito e submisso como o ultimo ilota dos banquetes de Sparta.
Diz o author da Memoria sobre a conspiração de 1817 (livro que não foi estranho ás solicitudes de Beresford): «O tenente-general, Gomes Freire de Andrade, ha sido preso pelo desembargador ajudante do intendente, João Gaudencio, acompanhado de um forte destacamento da guarda da policia, commandado pelo tenente-coronel da mesma, Joaquim José Maria de Sousa Tavares. Depois de cercarem a casa do tenente-general (que morava no alto da calçada do Salitre) arrombaram a porta da rua, e foram arrombando as de mais até chegarem ao gabinete onde elle se achava; assim que foi arrombada esta, os soldados entraram no quarto, apontando as armas contra o general, o qual não fez a menor resistencia, nem se mostrou assustado, e por detraz dos soldados gritou o dito tenente-coronel:--«V. exc.ª está preso»--ao que Gomes Freire respondeu: «Assim se entra com tanta insolencia e desafôro em casa de um tenente-general?--e vossemecê não me póde prender, porque não tem a minha patente.» Então appareceu o desembargador, e mostrando-lhe a ordem, o general se deu á prisão sem nada dizer ao desembargador; mas voltando-se para o tenente-coronel, chamou-lhe um fraco, e insolente, ajuntando, que o seu comportamento não era nem de um official, nem de um cavalheiro, mas sim, de um esbirro, aguazil ou vil agarrador.»
O tenente-general foi conduzido logo para a torre de S. Julião, acompanhado pela mesma escolta de cavallaria da policia, que o fôra prender. As outras victimas d'esta perseguição foram conduzidas uma parte para o Limoeiro, e a outra para o Castello. Começou immediatamente o processo, diz o author da Memoria, «com aquellas tenebrosas formalidades do costume.»
«Parece, que os governadores do reino, acrescenta o mesmo apologista de Beresford, projectaram implicar, na conspiração, todos os maçons, para com este pretexto se desfazerem d'algumas pessoas a quem não eram affeiçoados.» Esta infernal lembrança era uma inspiração do secretario D. Miguel Pereira Forjaz.
Vejamos os maçons.
A paginas quarenta e uma dos Annaes e codigo dos pedreiros livres, lê-se o seguinte: