«1814
«N'esta época foi iniciado José d'Andrade Corvo, sendo capitão d'infanteria n.º 10, ás ordens do conde de Rezende, na loja Virtude ao oriente de Lisboa. Como então trabalhasse sómente a dita loja, e a Regeneração, ás quaes se tinham reunido poucos membros, receosos de que o governo renovasse as perseguições de 1809 e 1810, e houvesse falta de irmãos para os differentes cargos da loja, conferiram-se a José d'Andrade os graus de companheiro e mestre, e pouco depois elegeram-no secretario. Incansavel nos trabalhos da maçonaria, Corvo recrutou muitas pessoas, e encarregou-se de propôr á viscondessa de Juromenha, D. Maria da Luz, o ser iniciada na maçonaria, o que se fez no fim do mesmo anno, na quinta que antes era do marquez d'Angeja, no Lumiar, em sessão magna, a que assistiram alguns personagens respeitaveis, e que n'aquelle tempo occupavam postos e empregos eminentes na capital. Esta iniciação teve por fim o saber-se pela viscondessa quaes os sentimentos do marechal Beresford a respeito da liberdade; mas por fim ella, Corvo, e João de Sá atraiçoaram todos os maçons, e só serviram Beresford. O refalsado Corvo continuando a fazer muitos e valiosos serviços á maçonaria, e a distinguir-se mesmo entre os mais diligentes, obteve alguns dos graus superiores, e na installação da loja Philanthropia ao oriente de Santarem, foi elle um dos tres deputados mandados pela grande loja para a installação. Esta loja nomeou-o depois seu representante, e em consequencia d'isso lhe deram o grau de Rosa-Cruz. Entramos em todas estas particularidades porque este homem de execranda memoria, pagando tantos favores com a mais negra ingratidão, e perfidia, atraiçoou a ordem, e denunciou o infeliz grão-mestre, Gomes Freire de Andrade, para o levar ao patibulo.»
Digamos quem era Corvo. Depois veremos Gomes Freire.
Continua o author dos Annaes:
«1824
«Em 30 d'abril o infante D. Miguel prende el-rei D. João VI, no paço da Bemposta, e assoalha que os pedreiros livres o queriam matar.
«Appareceram tambem duas cartas, que por serem pouco conhecidas, as vamos transcrever:
«Carta de José d'Andrade Corvo a seu irmão em Torres-Novas
«Meu Francisco.--Saberás que o bravo infante acaba de salvar a patria, descobrindo uma facção que tentava assassinar el-rei e toda a familia real: toda a tropa d'esta capital esteve hontem em armas, e o dia 30 d'abril será um dia memoravel nos fastos da historia portugueza. Já estão presos os malvados, e entre elles os condes de Villa-Flôr, Paraty, e da Taipa, etc.
«Eu appareci immediatamente a cavallo n'aquelle dia, e andei sempre ao lado do infante, o mais bravo homem que tenho conhecido, e portei-me como Corvo; porém, meu Francisco, qual foi o meu desgosto por tu aqui não estares? Quando vi entrar o teu regimento, e te não vi, correram-me as lagrimas. Vai logo ter com o juiz de fóra, e faz com que ahi se acclame el-rei, e que se ponham luminarias, e se cante Te-Deum. Paiva Raposo foi quem descobriu tudo ao infante, e agora levará o diabo os pedreiros livres, e triumpharão os homens de bem.--Teu mano, etc.»