[D. MARIA CARACA BONAPARTE]
Não conheci, em Lisboa, esta senhora D. Maria, bastantemente historica e benemerita de immorredoura escriptura.
Conheceu-a aquelle esclarecido arcebispo, cujos sonhos, na noite da demencia, o leitor ouviu no sublime desarranjo chamado A catastrophe.
Est'outro escripto, menos nevoento e cerrado das turvações do delirio, tem especies em que o riso se trava com o compadecimento, e outras em que a compaixão d'aquelle distincto homem nos redobra o pezar de se haver perdido no vigor da idade tamanho espirito.
D. MARIA CARACA BONAPARTE, OU A BURRINHA PROTESTANTE
D. Maria Caraca teve tres estados: foi orphã, casada e viuva: seu pai morreu na guerra da Italia combatendo contra os francezes pela independencia da peninsula italiana; era natural de Milão, cantor da opera e grande enthusiasta das novas idéas da republica, que haviam volcanisado o seu cerebro até o delirio.
Quando este maestro da opera viu que a França proclamava a liberdade para tyrannisar os povos, lançou-se no partido mais hostil aos francezes da republica sanguinaria, e morreu deixando a sua morte bem vingada.
As suas idéas eram falsas e exageradas em religião e em politica; porque seguia occultamente todos os erros e absurdos de Luthero e de Calvino: o odio, que tinha ao summo pontifice era tão profundo, que o obrigava a blasphemar e praguejar contra os cardeaes e contra a santa sé, contra os bispos e contra as mitras e cadeiras.
Bonaparte venceu muitos ou todos os partidos que estiveram em campo contra a França: o general da republica principiou a imperar, e a exercer a sua tyrannia nas provincias muito antes de exaltar na metropole o throno do seu fatal despotismo, como sempre acontece.
Verres na Sicilia era mais do que imperador; Cesar sempre imperou nas provincias. Se D. Affonso d'Albuquerque fosse susceptivel de ambição podia usurpar o titulo de imperador da Asia; porque o povo desejava conferir-lhe todas as attribuições do imperio.