Já n'aquelle anno, em meio da bruteza das nossas platêas, se confrangiam de magoa e pejo alguns raros entendimentos que vaticinavam a resurreição do theatro nacional. Almeida Garrett orçava então pelos dezeseis annos. Florecidas mais seis primaveras n'aquelle precoce espirito, a arte nova lhe desbotoaria as primeiras flôres da grinalda.

A tristeza dos bons entendimentos, em presença do abatido e nojoso palco d'aquella época, prenunciava a aurora que alvoreceu, passados quinze annos, com o primeiro dia da liberdade. As musas, trajadas com elegancia e aquecidas ao sol de estranhos, repatriaram-se com os desterrados que lá fóra retemperaram o genio na incude da pobreza, e reviveram nos esplendores da civilisação.

Um dos liberaes, que emigraram em 1828, e cursavam as aulas em 1815, escreveu, n'este anno, uma carta ácerca do theatro nacional. Se este escripto da primeira mocidade não revela vasto estudo nem gentilezas de phrase, com certeza denota razão esclarecida. O author da carta volveu á sua patria, mais atido á espada que á penna. Uma e outra lhe cahiram simultaneamente da mão, no cerco do Porto. Não sei o nome do official que jaz obscurecido na valla dos que morreram em batalha. Apenas em uma nota que precede a seguinte carta se diz que o author d'ella, morto na rareada fileira dos mais audazes soldados do imperador, teria sido um dos melhores cultores das letras que esmeradamente seguira na emigração. Archivemos o documento que merece ser lido como desfastio aos indigestos pastelões de historia theatral com que o snr. Theophilo Fernandes (Joaquim) nos tem intestinado o tedio da leitura:

Carta escripta a um amigo em 3 de fevereiro de 1815 sobre a chegada dos comicos italianos, com algumas reflexões sobre os theatros portugueses.

Chegou finalmente a esta cidade a companhia dos comicos italianos, ha tanto tempo esperada, e hontem fizeram o seu primeiro ensaio. Domingo gordo vão, pela primeira vez, á scena, onde a curiosidade dos dilettanti é igual á impaciencia com que viam o theatro de S. Carlos fechado por falta de actores. Será bem difficil que estes, que chegaram, satisfaçam plenamente a espectação publica, onde se conserva ainda bem gravada a lembrança dos excellentes cantores, que tanto nos deleitaram n'estes ultimos tempos, e que brilharam com a mais bem merecida reputação n'este nosso theatro de S. Carlos, e que illustraram distinctamente a arte da musica tão agradavel, que a nossa mesma imaginação figura os anjos, cantando no paraiso a gloria do Deus Supremo.

Geralmente os portuguezes amam a musica com extremo, e tem um gosto particular por esta arte, principalmente depois que o senhor rei D. José fez vir para o seu theatro magnifico, que infelizmente o grande terremoto do anno de 1755 devorou, os melhores cantores que então havia em toda a Italia. Depois d'esta época sustentou o mesmo monarcha a mesma inclinação por esta arte, em que era muito entendido, e á sua imitação a nação toda se costumou tanto á boa musica, que houve particulares que chegaram a rivalisar com os mesmos professores. Ainda hoje não teem perdido de todo este gosto, principalmente os habitantes de Lisboa, que conservam viva a lembrança do canto melodioso, suave e delicado da Crescentini, de Cafforina, e da celebre Catalana, que por uma maneira nova de cantar, levaram esta sublime arte áquelle grau de perfeição, a que ella póde humanamente chegar.

Não julgo que estes virtuosos, que vieram, sejam iguaes em talentos áquelles de quem venho de fazer menção. Como não é sómente a arte, mas a natureza igualmente que os produz, e nem sempre esta é fertil em semelhantes producções, parece-me que o seu canto não causará nos espectadores o mesmo interesse, com que todos os lisbonenses corriam para o theatro a ouvir a melodia de vozes, e a harmonia de accentos, que realisavam os fabulosos das serêas. Como dizem, porém, que vem duas raparigas que não são mal parecidas, não deixarão de serem bem applaudidas pela platêa de Lisboa, na qual a mocidade olha sempre com mais attenção para os agrados da natureza do que para as perfeições da arte, ás quaes não paga tão grande tributo como á belleza.

É muito provavel que d'aqui em diante os bons cantores sejam mais raros na Italia, onde em outro tempo eram mais communs, não sómente porque os successos politicos tem influido consideravelmente n'esta parte da Europa sobre os progressos das artes liberaes, onde nasceram e tiveram o seu berço; mas porque o infame e detestavel costume da castração, com o fim de fazer as vozes finas, e bons sopranos, está justamente prohibida por uma lei sabia e judiciosa. Pois que barbaridade maior podia haver do que condemnarem os paes seus proprios filhos a uma mutilação que degrada a especie humana, que a inutilisa e que annulla os votos da natureza em prejuizo das suas mais admiraveis producções?

Não poderemos, pois, ouvir d'aqui em diante um novo Echiziel ou um Crescentini, que modulavam as suas vozes finas á custa do bem que tinham perdido, por umas notas successivas e prolongadas, que bem longe de moverem a alma pela força da expressão, a affligiam pelos patheticos esforços de uma modulação uniforme; mas ouviremos talvez com um prazer mais interessante os sons masculinos d'aquellas vozes fortes e animadas, que conciliem com os seus accentos a viva expressão dos sentimentos differentes da nossa alma, em que um gosto sublime e delicado faz consistir a perfeição da musica, para o qual não é o melhor musico aquelle que se occupa só em vencer difficuldades; mas aquelle que, pelas doçuras da harmonia, inspira na nossa alma, e lhe communica os mesmos sentimentos que exprime no seu canto.

Qualquer que seja, porém, o merecimento dos novos comicos, é sempre uma especie de satisfação para os moradores de Lisboa verem o melhor theatro, que teem, aberto, e terem quem trabalhe n'elle, o que é sempre um grande recurso em uma grande cidade, destituida de divertimentos publicos, e onde se consome o homem, e sobre tudo os estrangeiros, á força de uma negra melancolia, não havendo outro passatempo, que não seja o de algumas sociedades particulares, onde só apparecem aquelles que possuem grandes meios, para alli ostentarem toda a sua vaidade, e quasi sempre todo o seu orgulho. É bem verdade que toda a comica representação, que alli fazem, é quasi sempre á custa da sua bolsa, pois que é descredito entre elles não jogar. Os gatunos que nunca faltam n'estas assembléas, nunca perdem a occasião de os depennarem; e os murmuradores e maldizentes de admirarem o como a fortuna faz de um tolo um homem entendido, e como transforma um sevandija em um fidalgo cortezão.