É certo que os invernos são bem custosos de passar em Lisboa sem o recurso dos theatros, não havendo outro algum divertimento publico, mais do que as assembléas acima referidas, onde nem todos podem ir, e que nem a todos é permittido frequentar. Não ha aqui, como em Londres, em Paris, em Vienna, em Petersbourg e em Veneza salas publicas de baile, onde se passem as noites, e menos cafés bem compostos, em que todo o homem bem creado acha a melhor companhia, e onde trava amizade com os homens mais distinctos e que são assás uteis muitas vezes. Os nossos costumes reservados, e os principios da politica, de os dirigir pela desconfiança ou pelo temor, em que a policia ganha porque tem menos que observar e menos motivo para temer que a ordem publica seja alterada, fazem que estas privações se soffram com toda a paciencia, contentando-se cada um que não tem os meios competentes para frequentar as companhias do melhor tom, a ir passar a noite com o seu compadre ou com o seu visinho, a murmurarem uns dos outros. Sem este recurso ficariam sempre em casa, semelhantes ás mumias do Egypto, embrulhados nos seus capotes, unico meio de que se servem para resistirem aos rigores da estação.

Não faltará quem diga que faço um quadro de Lisboa, no tocante aos seus divertimentos publicos, menos vantajoso; pois que uma cidade populosa que tem tres theatros nacionaes, além do italiano, e uma quantidade immensa de grandes sociedades, que tem nas semanas dias fixos em que se ajuntam, não está de menor condição n'esta parte ás mais opulentas da Europa. Esta reflexão, se ficasse sem replica, me attribuiria talvez, na opinião geral, um espirito de maledicencia que eu não tenho; e para me salvar de qualquer imputação que n'este particular se me haja de fazer, vejo-me obrigado a fazer aqui algumas observações sobre os nossos theatros nacionaes, que pela sua construcção material e pelo genio dos actores, que n'elles representam, não constituem um divertimento que chame o gosto, o interesse e a distracção da classe mais escolhida da nação, a quem não fazem grande honra nem excitam aquella curiosidade que faz frequentar estas escólas dos costumes e do bom gosto.

Quanto á construcção destes nossos theatros duvido que se achem, ainda nas mesmas provincias dos reinos mais civilisados, outros semelhantes ao da rua dos Condes ou do Salitre. As incommodidades que cada um é obrigado alli a supportar, não compensam os agrados mais deleitaveis da melhor representação, ainda no caso que a houvesse. No meio da platêa arde em fogo, nas mesmas noites mais frias do inverno, o desgraçado espectador que acha alli lugar; pelos lados da mesma platêa vem um vento encanado pelos corredores, que atormenta todo o miseravel que occupa estes assentos. Nos camarotes, que são tão mesquinhos como tudo o mais, estes incommodos são ainda mais penosos; por entre as frestas das portas entra um frio pelo inverno, que gela, e que é principio certo de catarrhos, pleurizes e constipações, que circulam amplamente n'aquelle triste recinto; e quando o espectaculo acaba, nem lugar reservado, em que se esperem as carruagens, nem modo algum de prevenir os grandes males, a que cada um fica exposto á porta da rua ou no aperto dos corredores, até que chegue a carruagem que o ha de transportar. O theatro do Salitre e o da Boa Hora teem estas incommodidades mais marcadas; de maneira que todo aquelle que se propõe a ir a algum d'elles passar uma noite, deve ir disposto a vir doente: se é de verão, pelo nimio calor, se é de inverno, pelo frio. Assim não conheço um meio mais proprio a quem está em boa saude, de estar doente, do que ir a um d'estes theatros. Ora, que divertimento póde ter n'estes espectaculos aquelle, que cuida mais em se livrar dos males a que se vê exposto, do que gozar das illusões que apresenta á imaginação uma sala de espectaculo? Se todos estes incommodos, que se compram por dinheiro, fossem, comtudo, compensados pelo deleite de uma boa representação, seria ainda assim desculpavel, sacrificar ao prazer certos incommodos, de que uns não fazem caso por genio, e que outros desprezam, porque lhes insta a necessidade que sentem de se distrahirem. Mas a representação é tão insipida e tão enfadonha! Os comicos interessam tão pouco; e os caracteres que representam são, ou por falta de natureza ou por ignorancia propria, tão mal sustentados, que não valem a pena de se ouvirem á custa dos grandes detrimentos que se soffrem, principalmente quando um homem tem o seu gosto formado pelos bons modelos da arte dramatica, a quem um actor mediocre e baixo é tão insupportavel, como uma musica desafinada e sem harmonia na sua composição. Taes são, portanto todos os nossos actores, os quaes entram n'esta carreira mais com o fim de acharem n'ella uma subsistencia segura e commoda, que com o nobre intento de adquirirem uma gloria que immortalisou os famosos nomes de Molière, de Baron, de Garrik e de le Kain.

Pois que uma casualidade impensada me chegou a ponto de fazer algumas observações sobre os nossos theatros, não quero perder esta occasião de expor o meu juizo sobre este assumpto, que aliás é um seguro thermometro, que indica o grau em que se acha a civilisação e os costumes das nações. Como escrevo uma carta e não faço uma dissertação, cuidarei quanto podér de abreviar o meu discurso, que não terá mais que simplesmente o resultado de fazer vêr quanto Thalia e Melpomene favorece pouco os engenhos dos portuguezes nas artes a que presidem estas musas, cujas influencias são tão brilhantes e tão liberaes para outras nações, que cultivam com o melhor successo esta arte, que nos representa vivamente os vicios e as virtudes dos homens, assim como tambem os seus defeitos e os seus ridiculos.

Podemos seguramente dizer com toda a verdade, que nós, os portuguezes, não podemos ter a gloria de dizer que temos um theatro nacional, pois que não temos nem actores dramaticos nem actores capazes de desempenharem estas bellas composições do espirito humano. Não é de admirar que não haja bons representantes, onde faltam os poetas; porque aquella mesma natureza, que inspira o enthusiasmo da imaginação, não deixa de inspirar tambem o gosto particular da imitação, de modo que é observação demonstrada, que onde os engenhos sabem conceber os mais brilhantes pensamentos e estudam todos os movimentos da nossa alma, dirigida pelas suas affeições ou pelos impulsos das paixões humanas, ahi se encontram tambem aquelles talentos superiores e naturaes, que na scena representam com toda a energia e delicadeza aquelles mesmos movimentos; de maneira que parece realidade o que não é mais que imitação. Garrik, a cada sentimento que exprimia nos theatros de Londres, mudava de voz e de semblante, como a expressão requeria; e Molière, em França, ridiculisava com uma graça tal todas as classes de homens de que se compõe o corpo social, quando a vaidade, presumpção ou amor proprio as desviava dos principios que a razão prescreve, que todos sentiam em si o defeito de que elle ria e zombava, para se corrigirem quando se julgavam objecto dos epigrammas e dos gestos comicos do comediante. Como este mesmo era o author das suas comedias, não é de admirar que exprimisse com energia aquillo mesmo que a sua alma sentia com toda a sua força; e é d'este modo que os theatros, que são as escólas dos costumes, onde se pintam ao natural pela fealdade do vicio ou pela ridicula pratica que os degrada, preenchem plenamente o fim para que foram instituidos; pois é evidente que todo aquelle actor que não tiver meios proprios para penetrar a alma dos seus espectadores pelas mais vivas e mais naturaes maneiras, figura e gestos da sua representação, não póde produzir o effeito que esta admiravel arte de imitação é capaz de produzir, e sem o qual effeito, uma sala de espectaculo não é mais do que uma camara optica em que os sentidos podem gozar de algumas momentaneas illusões, mas onde a alma jámais se deixará possuir d'aquelles prestigios do sentimento que faz amar a virtude e detestar o vicio, nas peças tragicas, e nas comicas, temer o amargoso fel da critica que corrige o homem, fazendo mofa dos seus costumes que pinta, quando são ridiculos, ao natural.

É para notar que os engenhos portuguezes, dotados, como todos os mais que gozam das dôces influencias do céo puro e crystallino do meio-dia, de uma viva e ardente inclinação para as artes de pura imaginação, principalmente a da poesia, se contentem só de a cultivarem á margem dos rios e á sombra dos arvoredos, onde suspiram pelas suas amadas, em versos sim, amorosos e sentimentaes, mas que só fallam de amor, de saudades, de ciumes e de ingratidão. Um só d'estes genios favorecidos das musas tem aspirado á gloria de rivalisar com Euripedes ou com Sophocles, de igualar a Plauto ou a Terencio, e aquelle que tem intentado dar alguns passos na carreira dramatica, tem sido com tão infeliz successo, que parou no principio d'ella. Muitas vezes tenho pensado sobre a causa por que os nossos poetas, sendo inspirados de um estro proprio a todo o genero de versificação, só para o theatral não teem os talentos requeridos; e por resultado das minhas observações a este respeito, tenho colhido a idéa de que para compôr uma ecloga, um idyllio, uma epistola ou uma elegia, basta ao poeta exprimir os seus proprios sentimentos em bons versos e harmoniosos para ter um nome distincto no Parnaso: mas para compôr uma tragedia ou uma boa comedia de caracter, é preciso exprimir com elegancia, pureza e enthusiasmo os sentimentos dos outros, que é absolutamente necessario conhecer e aprofundar para os saber desenvolver pela acção. Ora este conhecimento não se adquire senão por um grande uso do mundo, e por um tacto particular do coração do homem e de toda a natureza humana em geral; mas este grande livro não se acha nas livrarias escripto, acha-se espalhado no tumulto da sociedade, onde os homens desenvolvem todas as suas idéas, todos os seus sentimentos, as suas paixões, os seus vicios, os seus crimes e o seu heroismo. É n'este livro que o poeta dramatico aprende a pintar na scena as virtudes de Catão e as ridiculas maneiras de um villão afidalgado; mas se o poeta, concentrado no fogo do seu amor, não conhece senão Damiana a quem dirige seus ais e seus queixumes, como ha de pintar as paixões dos homens e os seus ridiculos caprichos? Esta ignorancia me parece ser a causa por que os poetas portuguezes não consagram as suas musas mais que simplesmente ao amor a que os chama uma natural ternura, e o conhecimento de uma paixão, que elles conhecem melhor que quaesquer outras, e que explicam com mais sensibilidade e doçura. Nunca sahindo dos seus lares, vivendo em um pequeno circulo, uma imaginação, por mais poetica que seja, não póde produzir grandes e brilhantes concepções; e por consequencia, se conceber o plano de uma tragedia, que, segundo a opinião de mr. de la Harpe, é a obra prima do espirito humano, onde ha de ir buscar a materia para os debates? Se quizer compôr uma comedia, apenas saberá ridiculisar os defeitos do seu visinho tendeiro ou sapateiro.

Para provar que o cothurno não é feito para os nossos poetas lusitanos, basta lembrar que o assumpto da morte tragica da rainha D. Ignez de Castro, assumpto dos mais interessantes que tem apparecido em scena, tanto nos tempos antigos como nos modernos, tem apurado o estro dos nossos poetas portuguezes, não só pelo interesse da acção, mas por ser a acção passada entre nós, e que para excitar a compaixão tem de mais a historia que a proclama verdadeira. Tres ou quatro tragedias temos na nossa lingua portugueza d'este infeliz successo, e uma só d'ellas o immortalisa pelas bellezas dramaticas, que pouco ou nada correspondem a um assumpto igualmente sublime que pathetico. Não fallo da primeira e mais antiga de Antonio Ferreira, que passa aliás por poeta classico entre nós, e na qual se não acha a força de sentimentos, a violencia das paixões, postas em jogo para trazerem imminentemente a catastrophe que finalisa a tragedia. As scenas sem ligação, a intriga mal combinada e tão descoberta pelo dialogo, que todo o espectador conhece, desde o primeiro acto, qual será o fim da peça. Não fallo n'estes dialogos, em que as personagens que os declamam não tem bastante força para mostrarem todo o horror da inveja que instiga e anima os cortezãos orgulhosos da côrte de D. Affonso IV para sacrificarem ao furor d'aquella paixão o amor fino, legitimo e innocente de dous corações ternos, ligados pelos dôces e sagrados laços do hymeneu. Os córos que o author Ferreira introduziu por intervallos dos actos d'esta sua tragedia, á maneira dos gregos, é o que ha n'ella de melhor, por serem compostos de uma bella poesia, e tão pathetica, que movem o coração á maior sensibilidade. Outra tragedia, que temos sobre o mesmo assumpto, composta por o arcade Alcino não tem merecimento algum: as regras do theatro não são observadas; a versificação é languida e sem elegancia; os sentimentos friamente exprimidos, e os actores sempre sustentando um caracter forçado e não tirado da natureza da acção, d'aquella acção que deriva de paixões complicadas e violentas, que deviam ser mais energicamente desenvolvidas. Esta peça não tem regularidade nem entrecho de uma tragedia; é um drama feito á imitação dos de Metastasio, que não é poeta tragico, pois que além dos seus dramas interessarem geralmente mais pela musica do que pelo desenvolvimento da peça, este vem muitas vezes no segundo acto, e o terceiro é composto então de incidentes accessorios, quasi sempre insipidos e frios, porque n'elles não ha acção. Lembra-me ha annos vêr representar no theatro do Bairro Alto uma tragedia de D. Ignez de Castro tirada de uma comedia hespanhola de Don Calderon de la Barca, intitulada Reynar despues de morir. Esta peça foi geralmente applaudida e gostada pela energia e força de alma, com que uma actriz, chamada Cecilia, representou o papel de D. Ignez de Castro; mas esta peça deveu ao genio e aos talentos d'esta actriz o bom successo que teve, pois que examinando a contextura da peça, ella tinha os defeitos da hespanhola, em que não havia mais que tiradas de bons versos; mas pouca ou nenhuma verdade na acção; pois que, depois da morte d'esta infeliz princeza, apparecia uma scena em que o seu cadaver, sentado debaixo do solio, era coroado e solemnemente proclamado pelo seu amante, já rei, e por todo o seu povo como sua legitima rainha, e isto muito tempo depois de ter sido a victima das paixões dos cortezãos, invejosos de verem a familia dos Castros sobre o throno de Portugal. Esta scena, que pela sua magestosa decoração fazia todo o interesse d'esta peça, não parece ser uma segunda acção, que se representa? onde está pois a unidade da acção tragica, que é o primeiro preceito da tragedia? A coroação da rainha na mesma peça é tão irregular, quanto é novo de sentar em um solio o cadaver de uma princeza, assassinada no seu proprio palacio, muito tempo depois de enterrada no silencio de um sepulcro. Passemos todas estas incongruencias, que sómente trago á lembrança para mostrar que a poesia dramatica não é largamente distribuida pelas musas aos portuguezes.

N'estes ultimos tempos appareceu entre nós, sobre o mesmo assumpto, uma tragedia com o titulo de Nova tragedia de Ignez de Castro. Esta peça observa melhor os preceitos do theatro; a sua versificação é em algumas scenas elegante e sentimental; mas em outras não conserva esta igualdade. O fim ou o desatado da intriga é a catastrophe, que vem um pouco precipitada e não trazida por um jogo de paixões, susceptiveis de modificações differentes, que levam o coração humano ao excesso da paixão que agita e move os animos; o que faz que os dialogos são curtos e as scenas ainda mais. A da entrevista de Affonso IV com D. Ignez de Castro, que é uma das mais interessantes da peça, não póde satisfazer os espectadores, que vêem que um rei se occupa da sorte da infeliz Castro, de quem se separa, dizendo-lhe que vai para o conselho de estado, onde ella ha de ser julgada, e alli elle advogará a sua causa. Que enormes incongruencias! O rei tem no seu poder o perdoar-lhe; não é uma acção generosa salvar a innocencia das mãos que pretendem banhar-se no seu sangue? O conselho de estado não é um tribunal judiciario, que é só quem póde julgar e condemnar. E um ajuntamento de conselheiros, que o rei convoca para tratar da sorte de D. Ignez de Castro, como um negocio simplesmente politico. E então que triste personagem faz elle em advogar pela infeliz Castro, diante não de ministros que a julgam pelas leis, em que elle mesmo póde dispensar, mas diante de conselheiros invejosos, que verdadeiramente são algozes! Esta scena podia ser conduzida mais nobremente, conciliando a bondade do rei, que se mostra interessado a favor de Castro, com a dignidade da sua corôa, que póde ser enganada pelo artificio dos seus conselheiros, a quem é indigno da sua parte dar-lhes consentimento para serem os executores de um assassinio. Estas delicadezas não escapariam a Racine nem a Voltaire, se tratassem esta materia, porque, exactos observadores de tudo o que é decente e decoroso, não atropellariam tão facilmente o respeito da magestade, fazendo-a instrumento de crimes odiosos em um theatro em que um monarcha, se pelas paixões é um homem como outro qualquer, pela soberania é sempre executor da lei.

Alguns outros poetas n'estes tempos posteriores teem ensaiado o seu estro n'este genero de composição. A condessa de Vimieiro compoz uma tragedia, que foi laureada pela academia das sciencias de Lisboa, mais por favor que por justiça. Um certo Francisco Dias, homem só conhecido pelos seus talentos litterarios que cultivou no lugar humilde de uma tenda, compoz outra, cuja sorte foi, segundo creio, ainda mais infeliz do que a da condessa; e tantos esforços juntos não tem produzido um bom poeta tragico em Portugal que possa pôr-se ao pé do grande Corneille ou do sentimental Racine, mas ainda junto dos mais mediocres poetas tragicos do theatro francez. Esta inopia não vem ella do principio que acima já apontei? Para Raphael pintar uma obra prima no inimitavel quadro da transfiguração de Christo, foi preciso que a sua imaginação sublime lêsse no grande livro do universo todas as bellezas da natureza, para as saber pintar com propriedade, e conforme as suas primitivas creações; para um poeta tragico reproduzir o caracter de Catão, de Cesar, de Marco Antonio, de Brutus e da infeliz Dido, é necessario que entre com a sua imaginação no immenso theatro do mundo e contemple a variedade de successos que os interesses dos homens, as suas paixões, os motivos que as põem em acção, os progressos que fazem sobre as suas almas para virem a dominal-as com despotico poder, os crimes e as acções infames de que são causa, a degradação, em fim, da intelligencia humana, quando de todo se sujeita á perversidade do vicio e se entrega á corrupção dos costumes: sobre este quadro immenso a imaginação quer um campo largo para o contemplar, examinar e estudar; mas este campo falta aos nossos poetas, que levados do gosto dominante da nação, que tem por objecto o amor, não são pintores para retratarem grandes caracteres, nem teem imaginação bastante para darem aos grandes successos uma fórma que mostre todos os horrores dos vicios e todas as bellezas das virtudes, que é o principal objecto das tragedias.

Se este genero de composição não tem dado nome a poeta algum portuguez, menos se teem elles distinguido na comedia, pois que não temos uma, não digo boa, mas ainda muito mediocre. Parece que as musas são ainda n'esta parte mais avaras com os engenhos portuguezes, que, sendo os primeiros que abraçaram logo as artes graciosas, que no seculo XV a fortuna transplantou da Grecia para a Italia, onde acharam um benigno acolhimento, foram aquelles que por meio dellas menos gloria teem adquirido. As comedias que os nossos poetas do nosso seculo de Augusto—que é o d'el-rei D. João III—nos deixaram, não merecem sequer o nome de comedias; o que me não faz espanto, pois que Portugal então não tinha um só theatro, mais que o dos campos de Marte, e onde não ha theatros não ha quem componha comedias. A nossa feliz época da boa litteratura passou, e Camões ficou conhecido pelo primeiro poeta das Hespanhas pelo seu poema lyrico e não pelas suas miseraveis comedias, e a mesma sorte tiveram os seus contemporaneos que molharam o seu pincel na paleta de Melpomene. Os castelhanos que se senhorearam de Portugal, se distinguiram, mais que nenhuma outra nação da Europa, na arte de Aristophanes e de Menandro; porém não nos passaram este gosto, ou os portuguezes o não quizeram seguir, talvez por ser de uma nação que aborreciam. Como quer que seja, a arte dramatica foi inteiramente desprezada em Portugal, e o bom gosto da litteratura tendo-se corrompido n'este paiz pelos successos politicos, por que passou, fez totalmente esquecer aos poetas do tempo este genero de composição. Elle se limitava só a alguns autos sacramentaes, que se representavam popularmente em festas de igrejas e nos adros dos templos. As vidas dos santos davam assumpto para muitos d'estes autos, que correm ainda entre nós; e a piedade christã ia buscar n'estas representações mais estimulos para amarem a religião, do que motivos para cultivarem uma arte que, segundo Horacio, castigat ridendo mores. Não tenho idéa, nem pela historia nem por tradição alguma, que em Portugal houvesse um theatro em que se representassem comedias portuguezas, de que não appareciam authores, ou pelos embaraços da longa guerra, que houve n'este reino para sustentar a corôa na casa de Bragança, que não deram lugar para a applicação das artes, ou porque os portuguezes não quizeram imitar os seus inimigos, exercitando as suas musas na poesia dramatica em que os hespanhoes excediam a todas as outras nações da Europa. Estes não tinham theatros fixos; companhias ambulantes de comediantes, de que lemos na historia de Gil Blaz a descripção tão circumstanciada como critica. Corriam de villa em villa, a recitar as comedias de Calderon, Moreto, Solis, tres «Ingenios» que inundavam toda a Hespanha, em tanto que o espirito dos portuguezes se contentava com os seus autos sacramentaes de Santa Genoveva, de Santo Aleixo e outros semelhantes, que se davam ao publico em espectaculo nos dias das maiores festividades da igreja. Assim não se sabia entre nós o que era uma boa comedia, e n'esta ignorancia vivemos até que no principio do seculo passado appareceu o judeu Antonio José, que compoz um theatro de operas, as quaes nem pela poesia, pois que são em prosa, nem pelos titulos, que são Labyrintho de Creta, Encantos de Medêa e outros iguaes podem chamar-se comedias, ou porque trazem misturada musica de recitados e de arias, á maneira dos italianos, ou porque lhe falta aquelle caracter que distingue a comedia, e que Molière só fixou em França na época feliz da sua mais brilhante litteratura. Aquelle engenho, porém, infeliz pela fórma das suas composições dramaticas e mais ainda pela miseravel sorte que teve de ser condemnado a morrer queimado pelo santo officio, foi comtudo, o primeiro que viu as suas operas representadas no theatro do Bairro Alto, o primeiro que houve em Lisboa e onde os representantes eram bonecos que se moviam por arame e que fallavam pelas vozes dos interlocutores, que se mettiam por entre os bastidores. Tal era o estado em que se achava a arte dramatica em Portugal, quando já Molière brilhava em França como o restaurador dos theatros de Grecia e Roma, pelas suas admiraveis comedias e como um modelo perfeito da mais decente, entendida, natural e agradavel representação que até então não tinha apparecido em algum theatro do mundo antigo e moderno.