Nem este excellente author, que deu tanta gloria á França como Aristophanes tinha em outro tempo dado a Athenas, nem o genio particular que a natureza lhe tinha dado para imitar na scena as differentes personagens, que como author era obrigado a representar, causaram o mais pequeno estimulo aos engenhos portuguezes para o seguirem na carreira dramatica. As suas musas ficaram mudas n'este ponto, até que el-rei D. José, apaixonado pela musica, logo que subiu ao throno, mandou construir um magnifico theatro; e mandando vir da Italia os mais celebres musicos para cantarem n'elle as peças de Metastasio, extinguiu de todo o gosto da nação pelas comedias em lingua vulgar. Quem poderá deixar de reflectir que houvesse theatro nacional em uma nação em que o rei não gostava, e, por conseguinte, o não protegia? Não o havia, pois—nem comedias para se representarem, no caso de o haver; porque, como já disse, a poesia n'este genero emmudeceu em Portugal. O theatro real era tão magestoso que não admittia mais que pessoas de qualidades superiores; e as que ficavam mais abaixo não indo a elle ignoravam o que era uma comedia, uma tragedia e os mesmos dramas em musica, que se punham no theatro real. Succedeu o fatal terremoto de 1755; arruinou-se com a maior parte da cidade este sumptuoso espectaculo, e, até que a confusão d'aquella calamidade se ordenou, nem el-rei teve theatro nem o povo. Mas no anno de 1758 abriu-se o da rua dos Condes, que ainda hoje existe nas ruinas do palacio do marquez do Louriçal, com algum augmento que teve, depois da sua primitiva creação. As peças que ao principio n'elle se representavam eram as operas de Metastasio traduzidas em portuguez, Artaxerxes, Alexandre na India, Demofonte em Thracia, Ezio em Roma, etc. com relações á maneira hespanhola, e mil bufonerias, que d'aquelles bellos dramas faziam as peças mais ridiculas que se podiam pôr em scena; e, para tornar o theatro de todo desprezivel, eram homens vestidos de mulheres que representavam o papel de Erytrêa e das mais damas das peças e suas criadas, que os traductores introduziam para fazerem rir a plebe. Um só poeta appareceu com uma composição dramatica que fosse digna de apparecer em scena; e os directores d'este miseravel theatro pozeram em contribuição poetas hespanhoes e italianos para sustentarem o theatro.
Alguns annos depois um novo empresario estabeleceu um theatro no Bairro Alto, não onde havia o dos bonecos em tempo mais antigo, mas nas ruinas do palacio do conde de Soure, cuja abertura foi com uma companhia de musicos italianos que foi buscar a Londres. Esta empresa não durou muito tempo, e aos italianos succederam os portuguezes com o mesmo successo que tinham os da rua dos Condes, que podiam chamar-se actores de arraial. Este theatro do Bairro Alto de todo acabou e succedeu-lhe o do Salitre, que se conserva sem melhoramento algum que possa acreditar os engenhos portuguezes, que, nem pelas suas composições, nem pelo jogo da representação, tem dado á sua patria a gloria de ter um theatro nacional.
N'esta curta narração historica dos theatros portuguezes tenho feito vêr o pouco progresso que a arte dramatica tem feito em Portugal. Não é de admirar, porque onde os talentos superiores não são apreciados com justiça e recompensados com a grande estimação que lhe é devida, nem podem produzir fecundos fructos na arte theatral, que fazem as delicias do homem de gosto fino e delicado das cidades mais opulentas da Europa, nem terem a esperança de vêr seus nomes inscriptos nos monumentos que os homens gratos lhes consagram. As artes não florecem senão quando são immediatamente protegidas e estimadas pelos soberanos; e quer seja poeta, quer seja actor, se tem talentos distinctos, não merece a attenção e a estimação do seu principe, quem contribue para fazer a sua gloria mais brilhante? Os seculos de Augusto, de Leão X e dos Medicis de Florença, o de Luiz XIV em França não provam esta verdade? Não me detenho em amplificar estas minhas idéas com outras razões, porque não padece duvida que a memoria dos soberanos que se tem pronunciado protectores das bellas-artes vive ainda nos padrões que ellas lhe tem erigido, entretanto que a dos mais famosos conquistadores ficou confundida nos estragos que fizeram. Infelizmente os nossos soberanos portuguezes tem esquecido esta verdade, como muitas outras, e deixaram morrer Camões, que dá tanta gloria a Portugal, em um hospital. Desde esta desgraçada época tem sido os poetas n'este paiz tão pouco venturosos pela sua arte, que o nome de poeta só entre nós é synonymo de pobre e de miseravel. Que comedias, que tragedias boas podia pois haver em um tal paiz?
Se não podemos competir com as nações que cultivam as bellas-artes n'este genero dramatico, menos ainda os actores dos nossos theatros podem rivalisar com os das outras nações que tem formado já um gosto apurado e exquisito n'aquella parte que se chama representação. Ella não é mais do que uma simples imitação da natureza, que é o primeiro principio que deve seguir todo o bom actor. Separar-se d'elle por acanhamento ou por excesso, não acompanhar de gestos correspondentes as expressões, não saber desenvolver pelas attitudes os sentimentos que tem para declamar ou recitar, deixar-se transportar por estes sentimentos sem faltar á dignidade e á decencia que exige a personagem que representa, pronunciar com clareza e energia o que lhe compete dizer, e mostrar pela physionomia que o que diz vem do fundo da sua alma, sem estudo nem affectação, são as circumstancias principaes que formam um bom actor. Ora examinemos quaes dos nossos as sabem pôr em uso. Os grandes artistas desenvolvem os seus talentos estudando a natureza e seguindo os modelos que aprenderam a imital-a. Guido, Carrache, Albano devem a admiravel belleza dos seus quadros a este estudo singular de imitação; mas onde podem achar os nossos actores modelos, a quem possam imitar e talvez exceder? Não fazem estudo algum da natureza; ensaiam os seus papeis como simples obreiros, que tem uma empreitada a fazer e que hão de acabar seja como fôr; e n'esta parte o povo que compõe a platêa dos nossos theatros é o mais tolerante povo do universo, pois que soffre com a maior paciencia todos os actores bons, maus, medianos e incapazes de apparecerem. Por isso nunca aspiram áquella superioridade, em que o bom gosto, dirigido por um discernimento perspicaz e por uma critica sã e judiciosa, faz consistir a gloria do grande talento. Molière, o primeiro restaurador da comedia, como já disse acima, foi tambem o primeiro actor da França. Conta-se d'elle que os papeis que representava recitava-os antes a uma criada que tinha, que decidia, como intelligente, da sua boa ou má representação, e como bom juiz corrigia e emendava os seus defeitos. Um dia Molière, para melhor se convencer da intelligencia d'esta sua criada, recitava-lhe um papel de um author estranho, que fazia uma grande differença d'aquelles que eram composição d'aquelle homem inimitavel; ella conheceu logo o engano, e voltando-se para o amo lhe disse: «Vós representaes as vossas comedias como um exellente actor; mas essa que ensaiaes nem é vossa, nem vos fará applaudir.» Eis aqui como a applicação, o estudo e o modo de estudar secunda os dons da natureza: ora qual dos nossos actores tem imitado a Molière? Qual d'elles tem sido capaz de apurar o seu talento, se o tem, por um modo tão novo e tão extraordinario?
É difficil que um homem, que tem algum conhecimento de theatros, possa aturar a representação dos nossos comicos portuguezes, sempre affectada, sempre fóra do natural e sempre exprimida em vozes altisonantes, e cujos dialogos acabam geralmente em um hiato desagradavel e musical, estylo que não é proprio de quem conversa, que é o que compete á comedia, a qual representa um facto, um caracter, uma intriga, que se explica por uma conversação natural e semelhante ás que se fazem nas sociedades. Se a este estylo declamatorio ajuntarmos o excesso com que os criados ou criadas que vem á scena desempenham os seus papeis em gracejos que divertem o publico e que pela maior parte são insipidos, e sem outro interesse mais que o da risota, acharemos que está entre nós tão atrazado o jogo da representação theatral, que os nossos actores em seguindo bem o ponto, que lhes indica o que hão de dizer, são proprios para todas as personagens, e por conseguinte bons para nenhuma.
Lembra-me ha annos ir ao theatro da rua dos Condes assistir á representação da tragedia intitulada A Vestal, que traduzira em portuguez com elegancia o celebre Bocage. Esta peça tragica, susceptivel da mais brilhante representação pelo seu assumpto e pelos grandes interesses que n'ella se tratam, foi desgraçadamente tão mal representada, que pela parte que me toca não me fez a menor sensação. Quantas vezes disse commigo mesmo: «Ah! famoso Talma[1] que estiveste em Londres muitos annos com o fim de reunires os talentos da arte theatral dos dous paizes, que os sabem tão bem apreciar! se tu aqui estivesses, como verias esta excellente peça despedaçada por semelhantes actores?» Em uma das scenas apparece o grande pontifice que deve fazer executar a lei imposta ás vestaes sacrilegas e criminosas; reconhece que sua filha é a delinquente accusada; que conflicto de grandes e violentos sentimentos da religião e da natureza não devem combater a alma de um pai, que sendo igualmente pontifice ou ha de faltar á observancia da lei, primeira obrigação do homem, ou ha de calcar os estimulos quasi invenciveis da natureza, sacrificando o seu proprio sangue á vindicta da lei? Que genio, que talentos, que energia de caracter não são precisos para desenvolver toda esta opposição de sentimentos que combatem o coração humano de uma e de outra parte? O pobre miseravel actor era um automato no meio do theatro, e sem duvida eu tive tanta afflicção de vêr a sua insufficiencia pessoal, como aborrecimento de vêr a indifferença com que o povo portuguez soffre semelhantes actores, a quem convém mais propriamente uma enxada, do que a profissão de uma arte para a qual lhes faltam todos os requisitos. Esta peça me desenganou inteiramente da mediocridade dos nossos actores portuguezes e do estado miseravel em que estão os nossos theatros nacionaes, que tem a desgraça de verem estropeados nos seus proscenios as mais admiraveis producções do espirito humano.
Tenho dado uma curta idéa do pouco que a poesia dramatica concorre n'esta parte para a gloria nacional, assim como do pouco que os nossos actores contribuem para fazer brilhar uma arte que os povos mais polidos amam com tanto excesso, porque n'ella acham uma dôce e agradavel distracção aos seus negocios civis, quando ella é cultivada principalmente por aquelles talentos sublimes que ennobrecem tanto as nações que os viu nascer e creou, como a mesma arte que souberam aperfeiçoar.
Os limites de uma simples carta não me permittiram que eu tratasse este assumpto com aquella extensão que elle requeria para desilludir os muitos ignorantes que se persuadem da boa direcção dos nossos theatros e dos grandes talentos dos nossos actores. Contentei-me unicamente com tocar este ponto pela superficie conforme convinha a uma simples carta, em que a casualidade quiz que o fizesse entrar, a fim de dar a conhecer o nosso grande atrazamento n'esta parte; e creio que algumas das minhas observações não serão frivolas na opinião d'aquelles que tem frequentado os theatros estrangeiros, em que as peças que se representam n'elles concorrem tão poderosamente para a educação publica se ir aperfeiçoando cada vez mais, o que, a meu vêr, é o principal objecto da instituição dos theatros.
O povo de Lisboa não gosta com preferencia senão de farças e entremezes, por que só quer rir e divertir-se com as baboseiras que se dizem n'elles; mas é porque não conhece ainda a grande utilidade que poderia tirar de uma escóla de costumes e de maneiras que lhe quadrariam melhor que as muitas chalaças que ouvem, que lhes pervertem toda a inclinação que poderiam ter para aprenderem a ser polidos, decentes, modestos e virtuosos cidadãos—o que as peças theatraes que estão vendo representar, todos os dias, lhes não ensinam.
Adeus, meu bom amigo; perdôe esta matraca que lhe dou em favor do espirito com que a escrevi, que é o do bem publico, que se estende tambem a este ramo, que produz os fructos delicados do bom gosto, o qual se adquire nos theatros, e d'aquella urbanidade que não é filha da imitação; mas de uma intelligencia dirigida pela razão—tão util ao homem na sua condição particular, como gloriosa para a nação a que elle pertence.