Culpa os romances nimiamente realistas de perversores dos bons costumes: «Ha o romance serio, instructivo, philosophico, moral, espiritualista, da tempera do Promessi Sposi de Manzoni, que nos transporta a uma atmosphera salubre, onde se respira um ar impregnado de oxygeneo; que photographa todo o lado bello, puro e grande da humanidade. E ha o romance enervante, declinação insipida e interminavel d'elles e d'ellas; o romance bohemio ou cigano, composto pelo mancebo apaixonado, que come no restaurante de terceira classe, e morre etico aos vinte e cinco annos; e o romance realista ou positivista, ainda peor que o precedente, sem ideal algum; condensado de todos os miasmas da lama, de todas as corrupções do esphacelo, e de todos os sarcasmos e negações do atheismo, sem outra esphera por conseguinte mais que a materia pura, só por uma ironia de mau gosto chamado a alma nova.» (Pag. 227 e 228).
Acato a opinião do snr. Senna Freitas, quanto ás novellas descriptivas da vida contemporanea; mas desliso da severidade do seu juizo. Creio que assim como os bons e moralissimos romances não morigeram, tambem os immoraes não desmoralisam. Não são os romances que formam os costumes bons e maus; são os costumes que fazem os romances. E casos ha em que as novellas saturadas de virtude são inverosimeis e puramente phantasticas. Eu já escrevi algumas, nomeadamente as Lagrimas abençoadas e as Tres irmãs. Ninguem acreditou aquillo; e toda a gente aceitou como copias do natural Os brilhantes do brazileiro e A mulher fatal—dous livros miasmaticos, que só podem lêr-se com o interior do nariz plantado de alfadega e mangericão. Quando o marquez d'Urfé escrevia as suas novellas pastoraes, embrincadas de polidissima cortezia nos amores, vivia-se em França, pouco mais ou menos, como nos romances de Soulié, de Kock e de Feydeau. Ha de tudo. Ha muitissima gente honesta que lê a Lelia de Sand, e muitissima gente de ruins manhas que lê a Fabiola do cardeal Wisemann. Sem embargo estes reparos não desluzem a efficacia das considerações do snr. Senna Freitas.
Da summa do seu livro direi, com sincera admiração e devida justiça, que se revela ahi um excellente escriptor, um padre illustradissimo, um homem de bem, um argumentador convicto e em grande parte irrefutavel. D'este modo ajuiza o author da sua obra: É um livro christão que não fará ruim companhia junto ao lar das boas familias: nada mais.
É muito mais; porque afervora as crenças tibias, alvoroça as almas marasmadas na indifferença religiosa, descondensa a escuridade que fez noite algida nos corações abatidos pela desgraça. O snr. Senna Freitas nobilita o clero portuguez e honra as letras patrias. Se não fosse a palavra religião, quem explicaria tão obscura vida em tão alumiado espirito?
Congratulo-me com o meu benemerito amigo Ernesto Chardron, quando vejo entre as edições da sua copiosa livaria a estreia gloriosa do snr. Senna Freitas.
Cunha Vianna. Relampagos, com um prologo por João Penha. Livraria Internacional. Porto, 1874.—O author está na primeira florecencia dos annos. Reçumbra-lhe do rosto a branda tristeza dos que soffrem com o encontro da incerteza nos umbraes da vida. Nuta entre os parceis, quando as vagas descahem, e lhe abrem um vacuo onde as idealisações lhe não dão pé, nem o positivismo ancora. É um dos muitos, cuja salvação depende de pouco: a experiencia da vida, o entrar na inanidade das cousas, o acordar com a cabeça ferida na corrente que fecha a galé dos obreiros do ideal—especie de somnambulos que fallam comsigo proprios, como João Penha, o redactor do Prologo.
Este, ainda assim, tem momentos de apégar no commum da vida. O seu fechar dos sonetos conhecidos e decorados é sempre a zombaria das altas cousas, dos raptos á divindade que se esconde, e aos mysterios do céo que atira estrellas a milhões sobre os seus interrogadores. O paio de Lamego e o presunto de Melgaço raro deixam de testemunhar que o espirito de João Penha é escorreito, e que a poesia, quando lhe apparece, como as revoadas das andorinhas, passa, não deixando de si no azul um vestigio de saudade.
O snr. Cunha Vianna está ainda entre os poetas de consciencia e inspiração. N'estes seus poemas não ha os desmandos e dislates que individualisam a poesia ultimamente inventada. É muito moço, e a sua musa parece filha da que floreceu em Portugal ha trinta annos. Não se dôa por isso o esperançoso escriptor. Do bom senso dos seus versos ha de derivar-se o bom senso da sua prosa. Quando as flôres fenecerem, e os fructos se desabotoarem, verá quanto proveitoso é ter sido, a um tempo, o interprete do vago da alma e o aprendiz do positivo dos bons diccionarios.
Entre as suas poesias escolho um fragmento da Armada para que o leitor se convença de que lhe não inculco no snr. Cunha Vianna um arrolador de podridões, de anemias, de chloroses, e de tanta outra moxinifada com que intentam fazer-nos da imaginação hospital.