N'este poema, o oceano interroga Portugal algemado na grilheta do despotismo. Veleja ao longe a esquadra da Terceira que aprôa ao Mindelo. O grande Atlante pergunta á armada o seu destino:
—Somos a Liberdade!
a esplendida epopéa!
a voz da humanidade!
o sol da Nova-Idéa!
Somos, oh monstro aquatico,
o verbo democratico,
tão forte como Deus!
mais rijo que a tormenta!
Astros, descei dos ceus!
Nuvens, descei do espaço!
vinde beijar o traço
das nossas naus possantes!
Nós somos os gigantes,
os Cyclopes modernos:
vimos livrar os mundos
de horrificos infernos.
Vimos fazer a guerra,
bradar a Torquemada:
—pódes fugir da terra,
que o teu imperio é nada!
Somos a Liberdade!
a esplendida epopéa!
a voz da humanidade!
a luz da Nova-Idéa!
«—Eu vos saúdo, ministros
d'uma idade d'esplendores!
Expulsai corvos sinistros
d'essa terra de condores!
—aves d'arrojo inaudito,
que muitas vezes s'elevam
ás solidões do infinito!
Que lindo paiz! é vêl-o:
por toda a parte boninas,
e, mais além, do Mindelo
as vicejantes campinas!
E mais ao longe a cidade,
que reflora ao Douro a estancia,
a Ostende da liberdade,
nova rival de Numancia!
—o Capitolio altaneiro
d'um povo livre e guerreiro,
que, n'um heroismo ardente,
unico, bello, e assombroso,
roubou mais d'um continente
ao meu reino tormentoso!
Heis de vencer, porque a historia,
a virgem que vos inspira,
já vos prepara na lyra
os hosannas da victoria!
Vencerá ao retrocesso
quem este abysmo venceu:
tendes por guia o progresso—
d'esta idade o Prometheu!»
* * *
Tempos depois a luz da nova aurora
illuminava os montes e a cidade!
A tyrannia, aniquilado o sceptro,
como livido espectro
lá transpunha os umbraes da soledade;
e um povo inteiro, a quem a paz inflora,
salvava estrepitoso
o brilho radioso
da augusta Liberdade!
Eis aqui um poeta.
Jerusalem, por Joaquim Pinto de Campos, etc. Lisboa, 1874.—Precede este precioso livro uma carta do snr. visconde de Castilho. Ahi se annunciam primores, quanto ao modo como a obra é escripta, e se dá de suspeito o snr. visconde quanto á substancia, ao contexto da idéa. «Creei-me semi-pagão entre pagãos millenarios do melhor engenho, sociedade minha ainda hoje», diz o grande poeta, em quem reviveram as almas de Anacreonte e Ovidio.
Comprehende-se este retrocesso no rasto esplendoroso que nos leva até casa dos Mecenas; mas, se ahi nos convida Petronio para uma cêa de Trimalcião, dá-nos vontade de fugir para uma das ágapes lôbregas em que o bocado de pão se ungia de lagrimas.
Magestade, estrondo, alegrias, febris prazeres e infernaes delicias tudo teriam de seu as musas pagãs com que deleitar a inspiração e o officio dos seus dilectos; mas poesia, a sincera, a ideal, a que aformosêa a vida dentro dos abysmos das suas quedas, essa não nos vem herdada de Horacio nem de Catullo: deu-nol-a o christianismo.
Aos muito affeiçoados a reliquias do velho Oriente suscita o monsenhor Pinto de Campos as reminiscencias dos cyclos anteriores á sagração do local em que passaram os lances da divina missão de Jesus Christo. A cada passo, resaltam ahi recordações da Roma imperial, com todos os accessorios que lhe lustraram a prosperidade como contraste da voragem que de um hausto a sorveu para sempre apagada.
O livro é tão de molde para todos os paladares, cinge-se tão caroavel ao deleite do curioso, do sabio e do devoto, que a ninguem será estranho o prazer da leitura. Em duas palavras qualifica um doutissimo critico fluminense o livro do snr. Pinto Campos: para mim tenho que a opinião classificará esta obra entre as de mór vulto que este seculo ha visto em lingua portugueza. (Reflexões de um solitario relativas ao livro Jerusalem, pag. 3).
Evidentemente, o snr. Pinto de de Campos conhece e exercita as menos communs bellezas da nossa lingua. Já o haviamos admirado nas fluencias descuidadas da conversação, antes de o reconhecermos no purismo d'este livro perfeitamente executado. O seu estylo tem a sobriedade, a parcimonia de enfeites que se adquirem quando a sã e alumiada razão os escolhe. As pompas e os recamos da dicção occorrem-lhe a ponto com rigorosa propriedade. A unção religiosa dos quadros nunca é prejudicada pelos estofos da rhetorica. As figuras cedem a sua luz ficticia ao brilho permanente da verdade. A relanços descriptivos da Terra Santa, resôa ás vezes o dizer chão e affavel de fr. Pantaleão de Aveiro, alternando-se com os raptos vehementes da piedade de Chateaubriand e do apaixonado lyrismo de Lamartine; mas tudo isto tão nosso, tão portuguez, tão condimentado do idioma de Sousa e de Bernardes, que não póde ser senão de monsenhor Pinto de Campos.