II
O enfermeiro-mór da casa da saude conduziu-me ao quarto de Duarte. Com certeza, se eu o encontrasse desprevenidamente, não o conheceria. O espasmo dos olhos seria bastante a desfigurar-lhe as outras feições, quasi sumidas na desgrenhada cabelleira e nas barbas. Immobilisava-lhe o semblante a sinistra quietação da demencia contemplativa.
Tambem elle me não reconheceu a mim, sem que eu lhe dissesse o meu nome. Fitava-me com repulsão, como se a presença de um desconhecido o molestasse fortemente; porém, depois que eu me nomeei, sahiu do torpor, levantou-se de golpe, e abraçou-me com transporte.
—Que tens tu, Duarte?... Estavas aqui, e não me participavas?
—Eu não sabia que estavas em Lisboa, nem tinha a vaidade de suppôr que ainda me conhecesses. Desde que te fallei na Foz, em 1856, nunca mais nos encontramos nem escrevemos.
—É verdade; mas nem por isso me eram estranhos os principaes passos da tua vida. Soube que casaste...
—Sim... casei...
—Com aquella menina que então... estava comtigo?
—Não...—respondeu Duarte com assombrado aspecto, e um sacudir de cabeça indicativos de azedume por tal pergunta.
Hesitei, á vista de tão subita mudança, se devia proseguir em tal interrogatorio. Foi elle quem interrompeu o silencio, repetindo: