—Não, não casei com essa...—e acrescentou, pondo-me no hombro a mão tremula—casei com outra... que já morreu...
—Morreu?
—Sim, morreram ambas; matei-as eu...
E, erguendo-se, travou-me do braço, levou-me comsigo para a janella, que abria sobre um jardim, alongou a vista na direcção da cupula do convento de Jesus, fez um gesto com a mão direita apontando para o céo, e quiz dizer umas palavras que, abafadas pelos gemidos, pareciam rever-lhe nos olhos em lagrimas copiosas.
E eu, que poderia imaginar agora phrases muito apropositadas á situação do meu amigo, não as invento, porque não lh'as disse então.
E quem seria mais verboso que eu, em lance tão desusado? Se elle, com effeito, havia matado as duas mulheres, eu, na verdade, não devia ensaiar maneiras de o consolar, dizendo-lhe que, se as matou, fizera muito bem. Figurou-se-me que Duarte fallára figuradamente. Porque ha muitos sujeitos, ainda mal, que vivem penalisados com remorsos de ter matado certas senhoras, sem ao menos admittirem que os medicos collaborassem com elles. Ora eu que reputára, n'outro tempo, aquelle Duarte Valdez tanto ou quê desarranjado pelas novellas, attribui ao seu romanticismo a parte odiosa no assassinio das duas senhoras.
Passados alguns segundos, fiz-lhe esta vulgarissima pergunta:
—Como as mataste tu?
—Despedaçando-as uma contra a outra.
Póde ser que o leitor esteja sorrindo; saiba, porém, que o tremor d'aquellas palavras vibrava tanto do seio do afflicto moço que uns calefrios me correram a espinha, e o turvamento das lagrimas me embaciou a vista. Situações analogas terá experimentado o leitor no theatro. Duas palavras, em uma ficção dramatica, exprimidas pelo actor que pintou os vincos da desgraça no rosto com fino pó de carvão, obrigam ás lagrimas pessoas que não chorariam, se a desgraça fosse com ellas.