—Chora, chora!—me disse elle, com vehemente exaltação.—Preciso que me chorem, porque... eu morrerei, adorando as duas mulheres que matei... e ninguem me ha de chorar.
—Pódes tu contar-me a tua historia?—perguntei eu.
—Posso... quero contar-t'a; mas receio que m'a não creias... A minha familia, e os medicos da provincia dizem que eu me deixo matar pela superstição, indigna da minha intelligencia... É um phantasma que me mata, dizem elles... Ah! se o vissem! se eu te podesse contar...
—Mas olha, Duarte, conta o que poderes... Eu hei de comprehender das tuas dôres alguma cousa mais que o vulgar dos homens. Até as superstições, se as tens, eu t'as entenderei; porque ha infortunios que não podem entender-se, sem a intervenção de alguma cousa sobrehumana.
—Pois então, vou contar-te a minha desastrada vida... Aquella infeliz menina que esteve na Foz, ha dez annos—começou Duarte com pausadas intercadencias—seria a minha bemaventurança, se eu não viesse a este mundo com a predestinação dos reprobos. Meu pai, desde que eu a tirei da casa paterna, ganhou-me entranhado odio; não por causa da culpa; mas com receio que eu remediasse a culpa com o casamento. O seu primeiro acto de vingança foi dar a casa a meu irmão, e reduzir-me a um patrimonio tão escasso que não chegaria ás minhas despezas de dous annos. Maria do Resgate era mais pobre que eu. Não desisti ainda assim de casar com ella. Pedi um emprego com a eloquencia da virtude desgraçada, já quando a minha subsistencia corria por conta dos paes de Maria. Estava eu em vespera de ser despachado amanuense do governo civil de Bragança, quando meu pai conseguiu inutilisar os esforços humilhantes que eu fizera para adquirir tão mesquinho emprego. Fui ajoelhar aos pés de meu pai: estava ao pé de mim, para me defender dos primeiros impetos da ira d'elle, minha mãi. Eu pedi-lhe simplesmente que não se oppozesse á minha collocação. Respondeu que se dava por aviltado, se seu filho fosse exercer tão ignobil occupação; e, sem me dar a confiança de questionar com o seu orgulho, disse que me dava recursos para estar dous annos em Lisbôa, ou o tempo necessario para me esquecer da filha do procurador de causas.
Minha mãi chamou-me de parte, e aconselhou-me que annuisse; na certeza de que, no espaço de dous annos, se eu não esquecesse Maria do Resgate, ella conseguiria o consentimento de meu pai.
Cedi forçado pela extrema necessidade. Maria, tão confiada em mim quanto eu confiava no meu proprio coração, accedeu na ausencia dos dous annos. Assim que eu sahi para Lisboa, sahiu ella para um convento de Bragança.
Cheguei aqui, e encontrei dinheiro em abundancia, amigos, relações, mulheres, liberdade, distracções, theatros, cêas, um desafogo de vida tão agradavel quanto amargurado me tinha corrido o ultimo anno.
Ás vezes, em meio dos meus divertimentos, assaltavam-me remorsos. Era então que eu respondia ás cartas apaixonadas de Maria, e perguntava a minha mãi se já tinha conseguido amollecer o duro coração de meu pai. Respondia-me que esperasse, e Maria respondia-me que esperava uma de duas cousas, que ambas lhe serviam: sahir da sua cella para mim ou para a sepultura. Os meus amigos viam estas cartas, e riam-se da minha credulidade.
Ao cabo de um anno, os remorsos que me incutiam as cartas, já nem a virtude tinham de as inspirar verdadeiras. Maria graduou por ellas o sentimento frio que as disfarçava, e disse-me que eu era tão ingrato que nem ao menos a deixava morrer enganada.