Aborreciam-me já as lastimas e a obrigação de as consolar. Sentava-me constrangido para lhe escrever. Já me queixava da sua pertinacia em me accusar de ingrato, quando ella mesma se acommodára á cruel necessidade da separação. Culpando-a de indiscreta, perguntava-lhe se quereria para mando um homem que teria de mendigar ou roubar para sustental-a. Aqui havia uma occulta infamia na mentira. Se eu pretendesse em Lisboa um emprego, tel-o-hia, sufficiente á sustentação de uma familia modesta; mas eu, desde que pisei os tapetes dos salões, pensava em ter salões com tapetes, e desde que as carruagens dos meus amigos me levaram aos theatros, desejei possuil-as para me desquitar de obrigações aos meus amigos. Eu estava perdido como meu pai me desejára; estava deshonrado bastantemente para desviar a imaginação da filha do procurador de causas, quando as titulares de Lisboa me perguntavam quem era a rainha dos bailes.
Ao fim de dous annos, minha mãi, quando eu já não perguntava o resultado das suas diligencias, avisou-me que meu pai vinha a Lisboa, na companhia de um nosso primo e de nossa prima, chegados do Brazil, com o proposito de nos visitarem.
Estes nossos primos eram naturaes do Rio de Janeiro. Alli ficára meu tio, pai d'elles, quando meu avô, que para lá fôra com o principe regente na qualidade de desembargador do paço, voltou para Portugal. Eu sabia d'estes parentes, e muitas vezes meu pai dissera que seria convenientissimo casar um de seus filhos com a prima brazileira, cuja fortuna rendia mais n'um mez que toda a nossa casa em um anno.
Confesso-te miseravelmente que me sobresaltou o aviso da vinda de minha prima. Vi salões com tapetes, e vi as suspiradas carruagens. Quem eu não vi foi a imagem de Maria do Resgate.
Minha prima Olinda era adoravel, ainda sem riqueza.
Este conceito que formei ao vêl-a e ouvil-a, dispensou-me de o formar, de mim, de grande villão. Amnistiava-me com a idéa de que, sendo ella pobre, eu a quereria para esposa. Amei-a, é certo que a idolatrei. Não tenho outra virtude que contrabalance com os meus delictos na presença de Deus, e d'ella e da outra desgraçada.
Havia dous mezes que Maria do Resgate me não escrevia, quando aqui chegou Olinda, e, passados dous mezes, sahia eu de Lisboa, casado com minha prima, a ir visitar minha mãi, para depois ir ao Rio receber os trezentos contos de minha mulher, e d'alli passarmos a residir em Lisboa, n'um palacio, com tapetes e carruagens.
Meu pai foi adiante preparar as festas da recepção, e ornamentar as salas para o baile, e a hospedagem para os convidados da nossa grande parentella.
Entrei profundamente triste na minha villa. As janellas da casa de Maria do Resgate estavam fechadas como se houvesse alli morrido alguem. Nas casas visinhas, havia senhoras e crianças que choviam abadas de flôres sobre o nosso carro.
Pouco depois que sahimos da mesa do jantar, atravessei com minha mulher a sala de espera, para descermos ao jardim. N'este transito, vimos sahir de um canto da sala uma mulher trajada de luto, que marchou de encontro a Olinda, sem levantar o véo espesso do rosto.