Não a conheci; mas mal podia suster-me de convulso.
—Que tens?!—disse minha mulher.—Esta senhora parece que tem alguma cousa que me dizer...
—Tenho, sim, minha senhora—acudiu a mulher de luto—v. exc.ª não me conhece nas salas de seu marido, porque eu sou a viuva de um pobre procurador de causas que morreu ha quinze dias, quando perdeu a esperança de vêr remediada a deshonra de nossa filha. Em quanto ella teve pai, embora perdida no conceito do mundo, tinha o pão, que seu pai lhe ganhava; mas agora, reduzida á orphandade, á pobreza, e á deshonra, venho implorar a v. exc.ª que a receba como sua criada, visto que foi seu marido que a perdeu. V. exc.ª fará o que a sua virtude e caridade lhe aconselhar.
E sahiu sem esperar resposta.
Estas palavras ouço-as ainda como se a alma da mulher que as disse m'as estivesse escrevendo na consciencia com um estylete de fogo.
—Que é isto?—perguntou-me minha mulher.
—É uma desgraça que eu te contarei—respondi torvamente.
—Conta-m'a já, e remediêmol-a sem demora—tornou ella.
Escondi-me com Olinda no mais sombrio do jardim, e tudo lhe referi com a sinceridade de um penitente. Ella ouviu-me com semblante carregado, avincando a testa, e ás vezes com signaes de compaixão, que de certo não era por mim.
Depois, ergueu-se, repelliu com brandura a minha mão que lhe acariciava o rosto e murmurou: