—Eu ignorava tudo isto. Desgraça irremediavel, já agora! Eu quero fallar com a mãi d'essa infeliz menina.
E assim que foi noite fechada, sahiu com um escudeiro, que a conduziu a casa da viuva do procurador.
Suspeito que a conferencia versou sobre a rica dotação de Maria do Resgate. A viuva repelliu a proposta, porque minha mulher voltando ao seu quarto, disse, como se ninguem a escutasse:
—As deshonradas... de certo não são ellas.
Até aqui—proseguiu Duarte Valdez—não ha nada maravilhoso na minha historia...
—De certo não; tudo vulgar—obtemperei eu que sabia centurias d'estas historias, cuja trivialidade nenhum romancista de tino hoje em dia aproveita da fardagem dos vicios communs.
—O horrivel maravilhoso começa agora—continuou Duarte.—Passados vintes dias, divulgou-se a noticia de estar moribunda no convento de Bragança Maria do Resgate. E em uma das seguintes noites, estando eu a dormir profundamente em um leito proximo do de minha mulher, acordei, sentindo no pescoço os apertões convulsos de duas mãos que me estrangulavam; e, abrindo os olhos, vi distinctamente nas trevas o rosto macerado de Maria muito perto do meu rosto; e, ao mesmo tempo que as suas mãos me asphyxiavam, sentia que o joelho d'ella me esmagava o coração. N'este lance dei um grito, e ouvi o estrebuchar de minha mulher, que soltava uns gemidos afflictissimos, como se lá sentisse angustias de suffocação iguaes ás minhas. Saltei do leito, e fui á recamara buscar a lamparina. Quando voltei, minha mulher estava de joelhos á beira da sua cama, com as mãos postas, com as faces cobertas de lagrimas, e os olhos esgazeados de terror.
—Que é isto, Olinda?—exclamei.
E ella, escondendo o rosto entre as mãos, murmurou:
—Vi agora a desgraçada menina que tu abandonaste. Já estava amortalhada. Era formosa como as martyres, e bem mais linda do que eu... Disse-me adeus... Sabia que eu tinha chorado por ella... Veio dizer-me que estava remida das suas dôres.