Eu não disse a Olinda que tambem vira Maria do Resgate.
O meu terror abafava-me a voz na garganta. Recorri á oração...—eu que desde a infancia não tinha orado. Fui ao quarto de minha mãi; acordei-a; pedi-lhe que viesse commigo para o oratorio. Contei-lhe as torturas da minha visão, e a visão de Olinda. Ella pegou de tremer e chorar. Se eu lhe dizia, sobre-posse, que a coincidencia dos sonhos podia acontecer, sem intervenção do phantasma de Maria, minha mãi não achava isto possivel, e mais me trespassava de horror.
No dia seguinte, chegou a noticia de ter expirado á uma hora da noite antecedente a reclusa do convento de Bragança. A pessoa que trouxe a nova, era encarregada de me entregar o maço de minhas cartas. Em volta das ultimas, que eu lhe escrevêra de Lisboa, havia uma cinta de papel e um escripto interposto com estas palavras:
Quando receber isto, que lhe deixo, para se convencer de que não ha testemunho escripto da sua crueldade, a mais feliz serei eu, porque estarei morta. O senhor de certo nunca será feliz, porque infamia e boa consciencia não se encontram juntas. Perdôo-lhe o que me fez: mas não posso perdoar-lhe a morte de meu pai nem o desamparo em que fica minha mãi.
Resta-me dizer-te—ajuntou Duarte, arquejando de cansaço e commoção—que minha mulher desde aquella hora nunca mais teve um instante de alegria nem saude. Viemos, passados dias, para Lisboa. D'aqui partimos para o Rio de Janeiro. Ao cabo de oito mezes, eu estava viuvo, e rico, muitissimo rico, e cada dia, cada hora mais desgraçado, mais combalido de uma enfermidade indescriptivel. Voltei ao seio de minha familia. Já não encontrei minha mãi; e a presença de meu pai coava-me nas veias um estremecimento de pavor. Ha cinco annos que arrasto esta vida sem a coragem de a despedaçar. Sinto ainda na garganta a pressão dos dedos fincados do phantasma. Ajoelho-lhe, alta noite, e imploro-lhe que me deixe morrer socegado. Peço á alma de minha mulher que suavise com palavras compassivas a vingança da desgraçada que deve estar na presença de Deus... Em fim...
E não proseguiu, porque n'este momento entrava o doutor Arantes, o previsto medico da casa da saude, que, sem ouvir esta narrativa, sabia que aquelle enfermo devia morrer, pela mesma razão mysteriosa que muitos atacados de semelhante morbus engordam e porejam saude por todos os orificios da sua enxundiosa epiderme.
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Duarte Valdez, que ainda vi na vespera da sua ida para a Madeira, foi e não voltou. As supplicas de Olinda lograriam que a misericordia divina o resgatasse da presa do seu remorso.
Que segredos são estes da natura?
Perguntaria Luiz de Camões.