—Que me creia; que se convença de que o seu abbade tem na residencia uma mulher; que esta mulher é bonita; que eu dava n'esta santa hora dous beijos...

—N'ella?

—Não, em vossê, se me descobrisse o mysterio d'aquella mulher, alli sequestrada do mundo, e absorvida toda na felicidade de um homem, que a esconde com tanta avareza, que os seus mais particulares amigos ignoram que tal creatura exista.

O meu compadre, feita uma longa pausa de reflexão, disse:

—Terá vossê razão!...

—Não é razão: é olhos. Juro-lhe que a vi.

—O que lhe posso dizer é que nunca entrei ao interior da residencia, nem pessoa alguma que eu saiba. Tem uma saleta onde era d'antes adéga, e onde recebe as pessoas que o procuram. Quando esteve, ha annos, doente, e precisava de medico, e de receber mais forçosamente quem o visitava, passou a cama para a saleta ao rez do pateo. Eu ia lá todos os dias, e nunca vi ao pé d'elle senão o criado; mas scismava com um rumor de passos no sobrado superior; e elle dizia-me que eram ratos.

—Eram ratazanas—corrigi eu.

—Pois seriam...—condescendeu o compadre, e prometteu esforçar-se por satisfazer a minha curiosidade.—Outra cousa,—disse-me elle quando iamos entrando em casa de volta do pomar.—Aqui vem todos os annos, em setembro, um rapaz estudante de Coimbra, que é sobrinho do abbade. Este rapaz dorme lá em cima. É crivel que elle, tão precavido com os outros, não escondesse a amante das vistas do sobrinho?!

—E quem nós diz a nós que o sobrinho não é filho, e que a amante não é mãi do tal rapaz?