—Verdadeiro pastor!—atalhei eu com sincero respeito. E acrescentei, passados instantes:—A senhora, que vive com elle, é sobrinha?

—Perdão! eu vi hoje lá uma senhora na janella que diz para o pateo.

Riu-se meu compadre, e, remoqueando, ajuntou:

—O meu amigo, provavelmente, estava a idealisar castellãs na residencia que tem ares de castello arruinado, e figurou-se-lhe vêr uma sobrinha do abbade.

—Compadre—repliquei—eu sei quando vejo castellãs e sei quando vejo sobrinhas d'abbades. O senhor tem a certeza de que não ha mulher n'aquella casa?

—Tenho tanta certeza como estar eu com o meu amigo n'este pomar.

—Então, permitta-me dizer-lhe que o seu abbade é um patife.

—Ó compadre!... Um patife?!

—Ou dous patifes em um só abbade. Demonstro: se é sobrinha, e por tanto uma familiar licita e honesta, não havia razão para escondel-a, nem ella para se esconder rapidamente de mim: logo, não é sobrinha; e, se não é sobrinha, é... conclua vossê a demonstração. Que é a mulher que vive com um abbade, e não quer ser vista?

—Que imaginação! que romancista!—exclamou meu compadre—Desengane-se. Este homem póde ser que não seja o padre mais virtuoso, nem aspire a ser canonisado; mas mulher em casa nunca teve alguma, nem, ha vinte e cinco annos, alguem lh'a conheceu na freguezia ou fóra d'ella. Que mais quer que eu lhe diga?