Quando, ha quinze annos, vim, pela primeira vez, a S. Miguel de Seide, conheci o abbade de S. P. de E***. Procurou-me, pedindo-me que lhe escrevesse uns versos funebres para a eça de uma senhora de casa illustre. Não comprehendi logo o destino dos versos. Explicou-me o abbade que a poesia, copiada em boa letra, seria pregada na eça, e assim exposta á contemplação do publico. Escrevi duas oitavas com mais sentimento do que as escreveria se conhecesse a defunta. Eis aqui como me relacionei com o egresso graciano, ligado á lenda d'aquella menina, que tivera um nome digno das trovas plangentes de poeta de soláos—Beatriz de Vilalva.

Cincoenta annos contava então o abbade. Rosto de saude e alegria. Poucas carnes; compleição fina, mas forte; raros cabellos grisalhos; trajo serio, limpo, elegante; maneiras polidas; dizeres sentenciosos; anecdotas chistosas, mas decentes; casos do seu convento; tradições ineditas do seu ex-conventual José Agostinho de Macedo, e d'outros cerdos que não deixaram tão illustre memoria a ensombrar obscuras infamias. Era optimo conversador o abbade, e revia, no seu fallar, alguns signaes de ter estudado applicadamente philosophia. Disse-me que fôra o primeiro estudante do curso, e que o snr. D. Miguel I, assistindo ao seu exame de logica, o premiára em publico com a medalha da sua real effigie. Bom avaliador e juiz! O snr. D. Miguel I foi grandemente entendido em logica: toda a gente sabe isto, não obstante me asseverar o abbade que sua magestade não estudara logica; mas premiava os martyres que a estudavam, a fim de animar os outros votados ao martyrio.

Com o lapso do tempo, relacionei-me com a familia herdeira da defunta que eu cantei ou chorei. N'esta casa vi algumas vezes o abbade, e outras na sua igreja. Aconteceu ir eu alli ser padrinho de uma criança d'aquella familia. Antecipei-me á hora dada. Detive-me a observar a residencia de padre João de Queiroz—silenciosa como um grande tumulo, com dous ciprestes á porta, com um rocio coberto de arbustos e herva espontanea a entestar na escada ingreme do sobrado. Tres janellas de rotulas fechadas e espessas. As paredes tapizadas de musgo e fetos a vegetarem das fisgas. Duas pombas pretas a arrulharem na cornija. Um pardal a sacudir as azas molhadas no beiral do telhado. E á volta d'isto o rumorejo dos pinhaes circumpostos.

Sentei-me no beiral do adro, a olhar para uma janella interior da residencia, e a scismar nos vinte e cinco annos que o abbade para alli trouxera, e nas noites e dias dos outros vinte e cinco alli passados, com resignação, e até com alegria, tão só e desatado dos agrados da companhia, e com tantos predicados para dar e receber na convivencia uma honesta felicidade! Quando esta meditação me estava enlevando áquella suave tristeza que faz os homens melhores e o fardo da vida mais leveiro, assomou um rosto de mulher na janella onde eu, sem intenção, fitára os olhos; e, apenas me viu, retrahiu-se tão de subito como se dentro tirassem por ella a repelão.

Isto abalou-me. A mulher parecera-me bonita; mas não ha que fiar nos conceitos da minha vista, que pouco alcança a curta distancia; quer, porém, fosse feia, figurou-se-me quasi bella: era o bastante para dar larga tela ao nebrí da poesia, que, lá do alto, crê vêr uma rôla onde ás vezes está uma cegonha.

N'este comenos, chegou o abbade, e a criança no collo da ama, e o pai com a madrinha, e o sacristão e as testemunhas, vindo todos da casa do meu compadre, onde inadvertidamente esperavam que eu fosse.

Finda a ceremonia, o abbade offereceu-me a sua casa por mera civilidade. Meu compadre acudiu logo, dizendo que nos esperava o almoço. Partimos para E***, e o abbade acompanhou-nos, depois de ter ido a casa despir a batina, e revestir-se aceadamente, de casaca preta com habito de Christo, collete de velludo, bota de verniz, e chapéo alto de brilhante sêda.

Em quanto elle se demorava, depois de almoço, no quarto de minha comadre, alegrando-a com apropositadas anecdotas—que as tinha para tudo—fui eu com meu compadre vêr o pomar de fruteiras peregrinas.

—Gosto muito d'este abbade—disse eu.—Parece-me um bom caracter, pela satisfação e alegre rosto com que se entrega á sua obscura missão, podendo com as qualidades que tem aspirar a melhor posição na vida ecclesiastica!

—Não quer. Affeiçoou-se a isto, e nunca mais d'aqui sahiu. Eu amo-o com ternura. Já foi elle quem me baptisou. Devo-lhe provas de profunda estima. Tem sido elle o anjo pacificador das desordens grandes que tem ameaçado a estabilidade da nossa familia.