Não obstante, a mãi de Beatriz continuou a gritar contra o roubador de sua filha, ainda depois que o capitão-mór a removeu d'alli para a sua quinta de Ovelha, nas vertentes do Marão—sitio azado para qualquer pessoa desditosa gritar á vontade, e sem grande incommodo dos visinhos.

Corridos seis mezes, o tragico successo estava esquecido, ou apenas era recordado quando o padre Queiroz apparecia em Amarante, e as pessoas de bem o apontavam como victima da calumnia, que o teve no gume da perdição; ao passo que ninguem accusava de assassino de sua filha o estupido e ambicioso capitão-mór que a quizera atar ao torpe cadaver do morgado de Pildre.

Padre João apesar de bemquisto e indemnisado pelo respeito das pessoas honestas, denotava no aspecto profunda tristeza, e aos seus intimos dizia que tinha saudades da paz do convento; e, logo que se lhe ageitasse modo, iria parochiar em algum presbyterio rural, bem longe d'aquella terra onde a aleivosia lhe matára para sempre o contentamento da liberdade e da familia. Instavam os amigos em despersuadil-o; mas assim que vagou uma igreja modesta no arcebispado, e nas visinhanças de Villa Nova de Famalicão, obteve-a de prompto com a sua reputação de liberal, e mudou-se para lá com immensa magoa dos seus conterraneos.

II

Pouco tempo depois, correram estranhos boatos ácerca do padre e de Beatriz. Dizia-se que uma mulher de Felgueiras, de má nota, e muito da casa do Pomar, estando em artigo de morte, dera a perceber que morria com um grande remorso; e muito apertada pela pessoa a quem revelára os seus trabalhos de consciencia, começou por dizer que a menina de Vilalva não se tinha afogado; porém, como as intermittencias no exprimir-se fossem longas, e o arrancar da vida começasse o seu derradeiro paroxismo, a moribunda expirára sem dizer mais nada.

E mais se dizia que, por uma noite de lua cheia, uns viandantes da Lixa, na subida do monte de Santa Quiteria, haviam encontrado um homem a cavallo em um possante macho, em companhia de uma mulher, por tal maneira envolta em um capote, que apenas se conhecia ser mulher pelas andilhas; e que um pouco atraz encontraram um criado a pé, o qual se retrahira para a sombra de um vallado quando os viu; mas apesar d'isso, o conheceram, e juravam ser o criado de padre João de Queiroz.

Estas atoardas não provavam nada em juizo; ainda assim, o vigario capitular oficiou ao prelado para que se devassasse secretamente da vida do abbade de S. P. de E***[1]. A syndicancia, habilmente dirigida, elucidou que o egresso abbade vivia exemplarmente. Que a sua familia era um criado e ninguem mais; que a residencia era só, triste e silenciosa como um cenobio monastico; emfim, que os freguezes respeitavam o seu pastor; e que, á excepção da casa do morgado de E***, padre João não entrava em casa alguma, senão em exercicio das suas obrigações, religiosissimamente cumpridas.

Depois, mais nada.

Profundo silencio. Os personagens da historia mysteriosa foram morrendo com a costumada regularidade. A mãi de Beatriz acabou em cheiro de douda. O capitão-mór morreu mais preoccupado com a derrota do Remechido que com o desastrado destino da filha. O morgado de Pildre, cuidando que se despicava do injurioso menospreço de Beatriz casando com uma senhora geitosa, vinculou-se matrimonialmente com uma sobrinha bonita e pobre; porém, passados tres annos, quando houve a certeza de que não era pai, mas sim tio-avô de seu filho, rebentou de paixão exacerbada pela anasarca. Contavam-se no discorrer dos tempos, estes casos, que faziam rir. Eu mesmo, ha vinte e seis annos, os ouvira n'aquella casa de Pildre, quando já era morta a viuva do morgado e fallecido o directo successor do vinculo, achando-se na administração do morgadio um meu amigo, já tambem—e ha quantos annos!—sepultado no cemiterio dos Prazeres em Lisboa.

III