—Credo!—bradou a velha afflicta.—Credo!...
—Nada de exclamações, minha mãi—atalhou padre João.—O nosso dever é franquear a estes senhores todos os cantos d'esta casa. Queiram seguir minha mãi, cuja vida honrada de sessenta annos não permitte que os senhores a considerem receptadora de meninas roubadas. E, entretanto que os senhores passam busca, eu vou vestir-me para os acompanhar á presença de quem aqui os mandou, e não terei grande magoa de entrar na cadeia, logo que fui ferido por tão perversa calumnia. O mais pungente do insulto já cá o tenho cravado na alma.
Em quanto os officiaes de justiça cumpriam o mandado, e o padre se vestia para depois acompanhal-os, um cavalleiro açodado, e que entrára do lado de Amarante á desfilada, apeou no terreiro da casa do Pomar, perguntando se alli estavam os meirinhos. A resposta affirmativa, tornou o emissario do juiz dizendo que sustassem a diligencia, porque á beira do Tamega se encontrára a capa da menina e um bilhete em que fazia declarações.
Padre João de Queiroz voltou-se contra o escrivão, e disse placidamente:
—Diga vossa mercê ao snr. capitão-mór da Lixa que eu lhe perdôo.
Os aguazis sahiram quasi edificados, desfazendo-se em satisfações ao egresso que os despediu com um amoravel e pacientissimo sorriso de bem-aventurado.
O bilhete de Beatriz declarava que a misera menina preferia morrer a casar-se á vontade despotica de seu pai, e invocava o testemunho de sua mãi a quem ella o havia predito com baldadas supplicas. Acrescentava que lhe rezassem por sua alma, e que morria confiada na misericordia divina.
A mãi, vendo o bilhete e reconhecendo a letra, pegou de berrar que tudo aquillo era impostura; que a filha lhe tinha dado opio para ella dormir mais de quinze horas sem acordo; que a sua filha estava escondida; e que o bilhete e a capa á beira do rio era tramoia de padre João para se escapar á justiça. E, dadas estas razões que a muita gente pareceram signaes de demencia, pegou de si, foi-se para a porta do egresso, e começou a berrar aqui d'el-rei contra elle.
No entanto, gente mais ajuizada procurava entre as ramarias dos salgueiros, que formavam grutas na ourela do Tamega, o cadaver da suicida. Depois de laboriosas pesquisas, descobriram no remanso da corrente que descahia de uma açude, um sapato de cordovão, que uma criada de Vilalva declarou ser de sua ama.
Como anoitecesse, cessaram as diligencias, e a justiça e o publico prescindiram do cadaver para dar como praticado o suicidio.