Era. O leitor, de sobra, sabe que era elle.

Dous mezes depois, vi annunciada a morte do abbade de S. P. de E***. Estava eu no Porto, e anciei saber as particularidades d'aquelle trespasse.

Quanto ao morrer, disseram-me que de uma ligeira esfoliação em uma perna resultára uma rapida gangrena, e a morte seguintemente.

Quando alguns freguezes entraram á residencia, alvorotados pelo dobrar do sino, viram á beira do morto uma senhora que nunca tinham visto, e o mancebo que já conheciam como sobrinho do abbade.

Esta senhora tinha os cabellos brancos, as faces cavadas, e a luz dos olhos embaciada pelas lagrimas. Perguntaram-lhe se era irmã do snr. abbade. Respondeu que não.

Abriu-se o testamento do defunto, e leu-se que tudo quanto n'aquella casa existia, tirante os utensilios da igreja, pertenciam á snr.ª D. Beatriz Pacheco Leite de Menezes, sua herdeira universal. Declarava que o testamento seria apresentado pela mesma senhora, e os necessarios esclarecimentos ácerca da idoneidade da herdeira os encontraria quem os solicitasse confirmados por escriptura na nota do tabellião, que mencionava.

A herança do abbade montava a doze contos de reis em dinheiro, producto das heranças provindas de irmãos fallecidos sem descendencia, e de uma quinta no concelho de Amarante, intitulada Vilalva. Por onde se infere que padre João de Queiroz havia comprado aos herdeiros do capitão-mór da lixa a casa onde Beatriz tivera o berço, e onde ia encontrar o leito da morte.

Quando o defunto era conduzido á sepultura, Beatriz de Vilalva sahiu com seu filho d'aquella casa onde vivera enclaustrada desde 1835 até 1872, trinta e sete annos sem ouvir de labios estranhos uma saudação. Acompanhou-os um velho—aquelle mesmo criado que a conduzira á casa de Felgueiras na noite da fuga, e levára á beira do Tamega a capa com o escripto, e atirára á corrente os sapatos.

Um dia, amanheceu á porta da quinta de Vilalva aquella familia desconhecida na terra. O criado abriu as portas. Beatriz correu direita a um dos quartos da casa. Atirou-se contra um leito, como quem abraça um cadaver, e chamou a estridentes gritos sua mãi. Ella imaginava que a douda morrera alli, depois de a ter amaldiçoado. O filho arrancando-a do quarto escuro, tirou-a para uma sala carinhosamente, e disse-lhe:

—Minha querida mãi, se a senhora não amou quanto devia essa infeliz que morreu louca, Deus lhe perdoou pelo muito que padeceu sepultando-se viva para esconder a sua culpa; e eu lhe provarei que Deus teve compaixão da sua penitencia, enchendo-me o coração do extremoso amor com que farei a felicidade dos seus ultimos annos.