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O snr. Innocencio Francisco da Silva, no tomo VIII do Diccionario bibliographico, pag. 379, não aceita como bastantemente decisivos os meus reparos. Traslado as razões do insigne escriptor:
«O snr. Camillo Castello Branco, em uma nota do folhetim que com o titulo Dous corações guizados publicou..., não só põe em duvida, mas nega redondamente que Bernardim Ribeiro, author das Saudades, seja o mesmo a quem os biographos attribuem as qualidades de commendador, governador de S. Jorge da Mina, e amante da infanta D. Beatriz, etc. Salvo o respeito devido ao nosso... romancista e meu presado amigo, parece-me que o juizo definitivo que se haja de assentar sobre estes pontos depende ainda de ulteriores averiguações. Deixo-as a quem tiver por ellas o tempo e a paciencia que de presente me faltou.»
Ulteriores investigações que fiz em cartapacios genealogicos e coevos levaram-me da certeza á evidencia de que Bernardim Ribeiro, o poeta, não era Bernardim Ribeiro Pacheco, o commendador de Villa Cova da ordem de Christo e capitão-mór das naus da india, casado com D. Maria de Vilhena, filha de D. Manoel de Menezes, nem ainda o outro Bernardim Ribeiro, governador de S. Jorge.
Do poeta, que pertencia a familia nobilissima do Torrão, logo veremos que não se esqueceram os genealogicos contemporaneos.
Do seu homonymo, para quem Barbosa Machado facilmente usurpou a immortalidade do outro, sei o nome de paes, de avós e de filhos.
Era filho de Luiz Estevianes Ribeiro, criado e thesoureiro do infante D. Fernando (filho de el-rei D. Manoel) e fidalgo de sua casa. Nasceu em Lisboa, junto á ponte de Alcantara, na quinta da Rola, que D. João I dera a um de seus avós.
Casou com D. Maria de Vilhena, filha de D. Manoel de Menezes.
Assistiu á batalha de Alcacer-Quivir, e ficou captivo. Voltando ao reino, foi despachado capitão-mór das naus da India em 1589, como paga de ter votado a favor da successão de Philippe II, e n'esse mesmo anno teve a commenda de Villa Cova.
Se o poeta Bernardim Ribeiro tinha em 1522 os vinte e um ou vinte e dous annos que se inferem dos versos citados, orçaria em 1589 pela idade dos noventa, pouco viçosa para capitanear a frota da India.