No principio do seculo XVIII ventilava-se uma questão de vinculos entre familias do Torrão que se assignavam Ribeiros e Mascarenhas, e appenso aos autos andava um instrumento antigo em que João Ribeiro, filho de Gonçalo Ribeiro, senhor de Aguiar de Neiva e Couto de Carvoeiro no almoxarifado de Ponte do lima, provava ser primo co-irmão de Bernardim Ribeiro, fidalgo principal e muito conhecido pelos seus versos intitulados Menina e Moça. O referido instrumento era passado em 1552, sendo já fallecido Bernardim Ribeiro.

Dos Mascarenhas, que venceram o pleito, era ascendente Manoel da Silva Mascarenhas, que servira em Tanger e nas armadas de Castella com o general D. Fradique de Toledo. Voltando a Portugal em 1640, foi um dos denunciantes da conjuração de 1641; e em premio d'isso o galardoou D. João IV com a alcaidaria da Torre de Outão, e ao mesmo tempo exerceu as funcções de guarda-mór da alfandega de Lisboa. Este Manoel da Silva Mascarenhas editou em 1645 as poesias do seu parente, mudando o titulo de Menina e Moça para Saudades de Bernardim Ribeiro.

D'este ramo não houve successão que hoje possa gloriar-se de parentesco remoto com o poeta. Manoel da Silva Mascarenhas foi casado com D. Garcia Pereira, filha de João Sodré, de Ourem; mas não deixou filhos legitimos. Teve dous bastardos: um mataram-lh'o em Setubal; do outro não fazem cabedal os linhagistas. Se o leitor e eu tivessemos pachorra, iriamos esquadrinhar a circulação sanguinea de nove ou dez gerações até encontrar globulos muito depauperados do sangue de Bernardim Ribeiro na familia Leites Pereiras de Mello, de S. João Novo, no Porto.

Mas um descobrimento de tão magna valia tanto importa á familia Leite Pereira, como ao leitor, como a mim,—um dos bons tolos que tem produzido a heraldica n'este seculo XIX!


[RESPOSTA DE JOSÉ ANASTACIO]

SATYRA FEITA A FRANCISCO DIAS, TENDEIRO, COM LOJA DE MERCEARIA NA RUA DAS ARCAS, CHAMADO POR ALCUNHA O DOUTOR BOTIJA, EM RESPOSTA DE OUTRA, QUE FEZ A UM SUJEITO, DE QUEM NÃO TINHA O MINIMO CONHECIMENTO, NEM O MENOR ESCANDALO.

Em quanto agora, o rude teu caixeiro
Unta as guedelhas no mofino azeite,
Que sobra do nojento candieiro;
Em quanto se entretem no porco enfeite,
E fervoroso tu lhe estás prégando
Para que nas balanças menos deite:
Ó mofino, meus versos escutando,
Melhor aprende a venerar a gente,
Que os jumentos, quaes tu, sabe ir picando.
Que sequaz te induziu, feio demente,
A romperes c'o a ovelha? que pateta
Nas garras te lançou do mal presente?
Foi talvez o politico de treta,
Humanado morcego, que na escura
Noite, á lambuge sahe da branca e preta[2]?
Calvo peralta, que sem tom murmura:
Venero-o; que é burrinho sustentado
Pelos serviços do defunto cura.
Foi algum minorista relaxado
Heroe dos Ganimedes, padre velho,
Nos dogmas de Lieu controversado?
Bibliographico vão de alto conselho:
Governa-te por esse moralista,
Que vende em praça o gato por coelho.
Nem estes, nem o secco rabulista,
Aguia manhosa, que folgando espera
Comer, nas garras, quem tentar na alpista.
De que hoje te arrepelles defendera,
Por chamares ao circulo um amigo
Que de asnos despicar-se não quizera.
Eia commigo, pedantão, commigo,
Que da Laconia os cães excedo na arte,
Com que em vereda os lobos maus persigo.
Não determino os versos censurar-te;
Supposto manifestem que os favores
Calliope comtigo não reparte.
Nem respondo tão pouco aos rimadores,
Que dão ás aguas de Hyppocrene o gosto
N'um cantar, como aos echos dos tambores.
Phebo a taes ignorantes volta o rosto:
Das lyras que no Olympo ouvir estima,
N'um ão com um ão o gosto não tem posto.
Nem menos aos exemplos teus da rima:
Sem ella os campos lacios, e os da aurora,
Deram plectros, que a todos vão de cima.
Nos mil volumes, creio lês por fóra;
Mas excede na orelha um mau jumento
Quem de Apollo as acções assim decóra.
Menos respondo ao baixo atrevimento,
De me accusares por fallar das artes,
Em meio de qualquer ajuntamento.
Comtigo n'isto a injuria bem repartes;
O sabio no lugar onde apparece
Das mãos não larga Homéro, nem Descartes.
Ditoso quem no mundo isto conhece!
Ditoso aquelle, que d'um n'outro errando,
Vagueia, té que a aurora lhe amanhece!
Cada um na sua herdade anda lavrando:
Tu desvelas-te em ser rico tendeiro,
Eu em andar nas artes estudando.
Nenhum d'estes defeitos, eu requeiro
Para abaixar-te a longa orelha; emprégo
Outro arrocho maior, maior fueiro.
Por isso de outros erros te não prégo:
Qual é o de seguires que entre os homes
O lynce represente ser um cego.
Teme-os embora tu, que d'elles comes;
Mas olha que ao cobarde a espada corta:
Nunca livre obra, quem receia fomes.
Quem te mette a induzir na estrada torta,
O que voar pretende além dos céos?
A porta da virtude é estreita porta.
Pondera, se com taes descuidos teus,
Não podia opprimir-te, envergonhar-te,
Se vergonha consente o mal nos seus.
Vê se bastante era isto a depennar-te,
D'essa vaidade, com que te apresentas
Decidindo de leve em qualquer parte.
Bem como as aves já de orgulho isentas
A gralha depennaram, que entendia
Encobrir suas plumas macilentas.
Que mal c'o as do pavão se revestia,
Eis lh'as depennam logo, e perseguindo
Vão todas a infeliz, que lhes fugia.
Hoje atravessa os mares repetindo:
Ao vaidoso mui mal serve a vaidade:
E de echo o exemplo teu lhe está servindo.
Se não tiveste geito para abbade,
Nem para leigo ser da Estremadura,
Quem te mette a inculcar letras de frade?
A natura não é contra natura:
Para Minerva, e Clio não tens ara,
Que um bom senso, não soffre má figura.
Qual das celestes musas não julgára,
Se teus metros Apollo a lêr vos dera,
Que em seu presidio Circe te hospedára?
E que tornar-te em burro pretendera,
Com mania de versos maus fazeres,
Como n'outros por magica fizera?
Para o que seus veneficos poderes,
Ajuntando, com vara diamantina
Te deu, ferindo o chão, a orelha a veres?
Mas Phebo a cousas taes me não destina.
Só na grandeza enorme da ambição,
Que te occupa, meu rude plectro afina.
Já sinto se me inflamma o coração,
Ah! Menippo cruel da mercearia,
Nas tramoias da tenda sabichão!
Onde férvido corres á porfia,
Uns dinheiros, sobre outros encofrando,
Sem afrouxares nunca em tal mania[3]?
Não vês que eterno mal estás cavando
A vida, que respiras, praguejada
Pela miseria dos que estão penando?
Quem te encontra de capa esfrangalhada,
Surdindo já pelo sapato o dedo,
Porcas as mãos, a cara besuntada,
O ar do rosto, de quem come azedo,
As melenas hirsutas, mal corridas,
Figura, que promove o nojo e medo:
Diria: «que mal correm as medidas
A este pobre!» a não te conhecer
Pelo mais traficante busca-vidas.
Com que razão, te intentas defender,
Sendo não só nos males teus culpado,
Mas nos de quantos menos podem ter?
Não sei como respiras socegado
Encontrando no mundo a cada passo
O triste, que tu fazes desgraçado!
Podes voltar as costas, ó escasso,
Á vista da miserrima figura,
De quantos mata o famulento laço?
Do pobre, que esforçar-se em vão procura,
Contra o peso dos annos, que servindo
Lhe estão de açoute, até á sepultura?
Do enfermo, que o grave mal sentindo,
Olha, e vê a terrivel desnudez
Estar-lhe aos pés a fria cova abrindo.
Presumo que em tal scena te não vês,
Ignorante selvage inda peor,
Que os mouros de Marrocos, ou de Fez.
Não te abrandam os echos do clamor
Da misera viuva, rodeada
Dos tenros fructos do passado amor,
Que rota, lacrimosa, esguedelhada,
Um dia vê raiar, vê outro dia,
Sem que lhe digam: «toma, desgraçada!»
Avaro sabichão da Barberia,
Aos golpes morrerás dos crueis damnos,
Que aos tristes motivar tua mania.
Pondéra meus sinceros desenganos,
Que de outro peso são, que os palavrosos
Discursos teus, errados, e profanos.
Fizeram na terra o mal os cobiçosos;
N'elles origem teve este direito,
Que faz o rico, e faz os desditosos.
N'elles é que se viu o homem sujeito:
N'elles a causa da ignorancia existe,
Pois ninguem conhecer quer seu defeito.
Porque de erros tão feios não sahiste,
Se ser tentavas critico dos homes?
N'um bom exemplo a boa lei consiste.
Outra vereda é licito que tomes;
Seja essa a de tendeiro, em que nasceste
Entre os exemplos já, de unhas de fomes.
Olha a quanto por nescio te expozeste!
A perderes do ser de humano a gloria,
Porque outro avaro Midas te fizeste!
Na terra gravarão triste memoria
Teus vicios, e acções escandalosas
Nunca sonhadas na mais vil historia.
Com que horror te olharão castas esposas,
Sabendo que aprouveste á tua dar
Um tostão, vendo-a enferma? E que repousas!
Com que odio chegarão a recordar
Não seguiste as leis do deus vendado,
Por mais cobres na burra accumular?
Morrendo viva o mal aventurado;
(Dirão ellas) nem d'elle se encarregue
O Charonte no Averno ao remo usado.
De Ixion, e Tantalo aos trabalhos chegue;
Nas garras das harpias monstruosas
Com elle, a grã discordia irada prégue.
Cáia aos pés das Euménides raivosas,
Que as cabeças de viboras povoadas
Cingem de escuras fitas sanguinosas.
Gema nas mãos das funebres e iradas
Scyllas biformes, cuja enormidade
As montanhas assombra inanimadas.
Que inda pequena é calamidade
Para quem dobra aos pés uma innocente
Dos vicios, que disfarça em castidade.
Ah! mofinento critico, indolente,
Para opprobrios respiras n'este mundo,
Alvo já dos rapazes, e da gente!
Vê porque nome trocas o profundo
Socego da virtude, tão querido,
Menippo turbulento, vil, e immundo!
Vê porque gloria vives opprimido,
Querendo bravo dar a conhecer-te,
Pela besta maior que tem nascido!
Sahe vacillante quem chegou a vêr-te
Sobre côxo banquinho repimpado
Ao canto do balcão, sem nunca erguer-te.
Quando ao mais alto o dia tem chegado
Ergueres essa cara agolfinhada,
Isto dizendo ao caixa enlabuzado:
«Ouves, tratante, uma hora é já passada:
Vai vêr no Talaveiras se sobeja
Alguma cousa, muito acommodada.
Senão, á cêa basta que isto seja;
Que eu por mim, te confesso, estou impando:
Inda a sardinha de hontem cá branqueja.»
Sahe aturdido quem te viu ceando
Negra bolacha, e na herva mal cozida,
Pingo e pingo o azeite alto deitando.
Mosca que ao prato vem, dobra a lambida
Mesa de cão; e ao longe teu caixeiro
Comendo está n'um canto por medida.
Mofino, que avançado no terreiro
O mundo desafias, teme agora
Morrer na espada do feroz Rogeiro.
Teme, teme os clamores, muito embora,
Da grã calamidade, que gemendo
Triste escrava do avaro, amarga chora:
Da grã calamidade, que volvendo
Os olhos para os céos, efficazmente
Expondo o mal, que á força está fazendo.
Eterno Padre, Justo, Omnipotente,
(Diga, vendo-se toda rodeada
Da miserrima, triste, e pobre gente)
Não posso respirar mais subjugada.
Aos erros da avareza repetidos
Por cujas mãos tyrannas fui criada.
Mil vezes entre funebres gemidos,
Vi abraçar os pés aos avarentos
Homens, estes que trago perseguidos.
Dizendo-lhes com ais, e pensamentos
Que as montanhas curvavam de gemer:
Ó vós, causas crueis d'estes tormentos!
Já que os templos dos numes soffreis vêr
Desornados, dos numes que piedosos
Vos deram vida, humanidade e ser:
Já que os olhos cerraes aos magestosos
Preceitos seus, no coração gravados;
Já que abusaes de serem generosos,
Ao menos vos commovam, desgraçados,
Miseros gostos nossos, innocentes
Combatidos da fome, e destroçados.
Não sejaes fortes com as humildes gentes:
Possa-vos compungir esta lembrança:
Que sois co' os irmãos vossos, inclementes.
Possa abalar-vos da primeira usança
As leis, restituindo á natureza
A gloria, os bens, o ser, a segurança.
Nada, ó Jove, abrandou sua dureza;
As razões todo o vicio aos homens tiram;
Mas a razões não olha o da avareza.
Ah! fulminante deus, quanto sentiram
Esses que desthronar-te já quizeram,
Que as penhas sobre penhas enxeriram!
Desata sobre avaros, que offenderam
Da natureza as leis n'um semelhante;
Que commetter mil males me fizeram.
Desata já das nuvens coruscante
Raio que envolva em subtil cinza quantos
Mofinos tem o mundo, ó deus tonante,
E dizendo isto, cáiam mil e tantos
Coriscos logo, serpenteando os ares,
Que te acabem entre horridos espantos.
Eis, clamarás então: santos altares,
Valei, valei!—porém mal acabando,
Tornado em cinzas te verão ficares.
Oh! quanto os teus, teus males alegrando
Correndo logo em turba, o cofre abrindo,
Vejo as mãos para os céos alevantando!
Uns o arroz da tenda já medindo,
Outros de um ar choroso mascarados
De quando em quando para um canto rindo!
A fama de improviso aos desgraçados
Corre, e por cem boccas apregoa,
Teus fins terriveis, mal aventurados.
Nenhum mais se entristece, nem magôa.
É justo o céo, é justo, pois castiga
Os avaros. Eis quanto n'elles sôa.
Pedante, não maltrates a barriga,
Entre saccos, e saccos de alimentos;
Não sejas mais avaro que a formiga.
Não queiras ser com muitos avarentos
Semelhante a Lycurgo, rodeado
De cofres, expirando nos tormentos.
Vive de tua esposa acompanhado,
Tendeirinhos pequenos fabricando,
Que bem obra quem segue o decretado.
Vai as medidas tu satyrisando,
Que para bocca d'asno o mel não é;
Deixa de andar as musas inquietando.
Para critico seres, tens mau pé:
Não murmures de outeiros, que em verdade,
N'elles Apollo o bom, e ruim vê.
E se fumos desejas ter de abbade,
Mostrando-te doutor de mitra, e toga,
Com primazias de robusto frade;
Aos ratos deixa a tenda, e desafoga:
Segue do Paiz Baixo essa mofina
Estrada; e vai firmar-te á synagoga.
Porque entre os phariseus da lei rabina,
Te inculcarás mui bem, já me percebes[4];
A natureza mais do que a arte ensina.
Entre nós os do Luso, não recebes
Louvor algum; olham-te mau tendeiro,
Um vil que na ambição nunca assás bebes.
Não saques mais as gentes a terreiro,
Que aos maus sou formidavel, arrebato
Nos cornos a capinha mais ligeiro.
As virtudes abraça de barato;
Olha que serás mais atassalhado,
Que na bocca do cão raivoso, o gato.
Sou semelhente ao genro desprezado
Por Licambo, ou bem ao inimigo
Vingativo do bufalo malvado.
Vende o bom bacalhau, o melhor figo:
Argumenta c'o teu almotacé:
Detesta os vicios, anda só comtigo,
O Alcorão não sigas de Mahomet.

*
* *

A mais completa noticia que temos de José Anastacio da Cunha deve-se ao esclarecido investigador, o snr. Innocencio Francisco da Silva (Dicc. bib., t. IV, pag. 221-231). Aqui encontramos pela primeira vez a sentença inquisitorial que condemna José Anastacio da Cunha a ouvil-a no auto publico de fé, com habito penitencial. A sentença confisca-lhe todos os bens, encerra-o por tres annos na congregação do oratorio, com dous dias de penitencia em cada mez no primeiro anno; findo o triennio da reclusão, desterra-o por quatro annos para Evora, e veda-lhe perpetuamente o ingresso em Coimbra e Valença.