Se o rei for santo certamente ha de ser propheta; porque todos os reis legitimos são constituidos por causa do povo; e por isso bem decidiu a santa sé pontificia quando deixou o complemento da santidade de S. Affonso reservada para o computo da 16.ª geração: mas pareceu-nos que a ultima prova se devia presumir e dar por existente ou por verificada e cumprida como promessa divina, ou desnecessaria e superabundante.
Assim aconteceu sempre em Roma com o milagre d'Ourique; mas nem sempre o povo recebeu a fé viva d'este santo milagre: os que vivem da falsa opinião e exploram as más disposições erram e perdem as suas almas, e não cessam de condemnar as alheias; estes iracundos da propria alma tramam e conspiram com todos os aventureiros, para levantar o idolo de suas paixões e sensuaes appetites: não vos pareça menor o numero dos defensores da boa e santa causa, nem deis por perdida a mais arriscada e perigosa do juizo humano em quanto se conservar pura da fé, isenta de contagio, estrenua e airosa pela virtude do desaggravo, e pela mais sublime e divina da sua penitencia e martyrio: se fôr desvanecido por virgens, se não tolerar o desacato, nem a vil affronta do impio, nem o sarcasmo do judeu e do protestante, nem a simonia do falso e perfido, nem a atrophia das almas sem as marcar com o ferrete, e sem as entregar ao indefectivel juizo da santidade e da fé.
O nosso sonho foi uma visão ou previsão de S. Affonso, que se verificou em Villa Real, n'esta antiga villa ou cidade: nós vimos em sonho o que S. Affonso no seu tempo previu como propheta: o sonho tem uma historia necessaria para a sua explicação; e como vem os factos traçados e encaminhados para este mesmo fim, temos unicamente a acrescentar o seguinte.
S. Affonso foi rei d'Ourique por justa e divina acclamação, as côrtes e os poderes do estado applaudiram a eleição, juraram seus preitos, e deram todos os documentos de boa fé e de cordial testemunho, do sincero empenho e da resolução em que estavam de todos os sacrificios para sustentar a acclamação e para continuar a guerra aos infieis. S. Affonso pretendeu o voto universal por ser causa de milagre e de grande sacrificio e do maior testemunho, e muitos ecclesiasticos que viviam nos prazeres do ocio, e que sentiam vêr retaliados pela guerra os campos das suas prebendas e passaes, e muitos ignobeis e falsos nobres, que seguiam a lei de seu egoismo, e d'estes em o maior numero commentavam a acclamação desfavoravelmente e persuadindo o povo a que não aceitasse o rei porque esta acclamação havia de causar grande descontentamento em Hespanha e traria comsigo algum maior dissabor da parte do supremo pontifice.
Havia com effeito da côrte de Roma duas exigencias muito fortes e constantes perante a côrte de Portugal: a primeira por causa do fôro de S. Pedro que é de morgadio do Divino Salvador, e a segunda por causa das cruzadas; por se dizer, que não irão do reino as cruzadas á Terra Santa, como eram obrigados todos os fieis. Sempre o conde-rei se tinha desembaraçado d'estas interpellações com muito favor, e não cessava a intriga de urdir novos ardis; por virem de fonte conhecida e poderosa, que era a côrte de Hespanha: mas obteve S. Affonso a bulla, que declarava o nosso reino Terra Santa e reino de cruzada, o seu rei como benemerito filho da santa Igreja e como antigo cruzado da Terra Santa de Palestina, e applicasse o fôro do Divino Salvador para as despezas da guerra. E logo a invicta monarchia obteve o suffragio e principiou a julgar-se invencivel: mas os seus inimigos não dormiam, e agora veremos o que urdiram em Roma mais calumnioso e atroz.
Formaram em Hespanha um processo secreto contra o rei com muitas testemunhas de Portugal, gente vil, desconhecida e de negra e atroz calumnia: os seus depoimentos recheados de torpezas e de peccados phantasticos que attribuiam ao rei, e com o principal artigo d'esta infame accusação que o monarcha a quem davam titulo de ambicioso seguia a falsa lei da polygamia, e que era no seu modo de viver semelhante aos reis mouros, e que tinha uma e duas mulheres em cada terra e que obrigava os meninos a beijar-lhe a mão como pai de todos, ou como papa; e que não havia mulher casada que não tivesse algum filho parecido com o rei, e que estava o reino cheio de malhados, e que por este signal se conheciam em melhor sombra do que os filhos dos negros. E mais diziam, que o rei só era generoso e de real doação para as mulheres, e que os homens andavam diante do soberbo califa como escravos d'harem. Levavam este recado os malignos tão bem encadeado, como se fosse verdadeiro: o demonio os ensinava a mentir a Deus e a jurar falso; verdadeira mentira é todo o engano, que se faz ao padre santo, que é vigario do Senhor.
E com o mesmo intuito e abominavel pensamento de homens de consciencia perdida, por terem paz occulta com os mouros e longas tregoas, e por não quererem renunciar aos commodos e seu egoismo, acrescentava a calumnia, dizendo que S. Affonso era hereje, e pretendia provar a accusação com tres factos: primeiro, por subir ao pulpito de habito talar e de cota, para prégar como prégava a favor do divino apparecimento, que os calumniadores impugnavam e davam por fabuloso, dizendo que nenhum bispo portuguez se jactava do milagre, nem prégava a favor da sua existencia, e que os seus padres tambem não prégavam tal façanha, e por isso subia o rei ao pulpito para o seu falso ministerio. O segundo facto que ligava ao primeiro consistia em dizer que distrahia das cruzadas os seus cavalleiros, e que os convidava para ficar no reino, e angariava para a deserção das suas bandeiras nacionaes com grandes promessas e doações de terras, que tirava á santa Igreja, e que n'este numero admittia sem escolha muitos e grandes herejes da mesma falsa escola dos homens mais ambiciosos, e que este D. Affonso era tão sofrego de ambição que tinha guerreado com sua mãi, e que a tivera presa até que morreu no castello de Lanhoso.
E ligavam a estes factos outro de maior atrocidade; porque directa e indirectamente offendia a santidade do summo pontifice, mas a nada d'isto attende a calumnia, quando vem proferida pelo maligno espirito contra a maxima verdade divina; e diziam os calumniadores e verdadeiros herejes que S. Affonso obtivera a bulla do privilegio pontificio do reino por meio de grande e manifesta obcecação e por falsa causa que allegou, e que era o maior inimigo das santas cruzadas, e que no seu lidar e batalhar era semelhante ao demonio, e que jámais deixava de ferir o seu adversario, e que ás vezes o feria pela malha com a sua espada quatro e cinco vezes superior á abertura da malha ou rede de ferro, e que este milagre era do demonio; e que elle tinham vencido em Ourique contra a opinião dos seus generaes por ingerencia do demonio e por ser grande hereje.
O processo era secreto, e D. Affonso não pôde prevenir o exito da injuriosa e negra calumnia; andava lidando com mouros ao pé de Cintra, aonde tinha castello fronteiro, e tinham os mouros o seu sustentado pelos seus navios, e gente de mar e chegavam com as suas correrias até Lisboa e talavam os campos, matavam e roubavam; e alli vivia ao pé S. Affonso solicito do modo porque havia de extinguir o covil, e já tinha certa a sua presa, quando o surprehendeu a noticia que vinha de Traz-os-Montes vencendo leguas e horas, de que andava um nuncio de Roma pelas igrejas principaes das villas e terras do reino a publicar um interdicto contra o rei e contra os seus soldados, se não abandonassem o rei no mesmo momento.
Apenas recebeu a tristissima noticia com todas as certezas do que se publicava e ordenava, o rei chorou por tres causas: pela futura sorte do reino; pelo erro d'aquelles perfidos calumniadores; e pela fraqueza humana que sujeitava o vigario do Divino Salvador a tão capciosa e calumniosa illusão. Fallou aos seus, e nenhum o deixou só n'aquella altura; e contra a opinião dos que julgaram que devia aceitar uma tregoa proposta pelos mouros pela causa principal do perigo em que viu aquelle castello de Cintra, resolveu tomar o castello na mesma noite, e o mesmo foi que ser o rei o primeiro a saltar dentro—ainda havia luz—e tomou o castello em duas horas. Deu immediatamente as suas providencias, e partiu para Traz-os-Montes e correu na distancia de mais de sessenta leguas a outro maior perigo, por vir de Hespanha o nuncio, e de Roma, d'onde menos se devia esperar, o flagello. O providente monarcha deixou a tregoa com o castello tomado; os mouros já não lucravam o armisticio, mas tinham proposto a suspensão, e não podiam recusar o arbitrio.