Quando nosso Senhor veio ao mundo era o cordeiro immaculado, e veio para o eterno sacrificio do Amor Divino. Nasceu em um presepio, e podia nascer em um monte, que era dado a sua santidade, e fóra do redil aonde nascem quasi todos os cordeiros, mas nasceu em um presepio para nascer entre os pastores e bem resguardado dos lobos, que procuravam o innocente para o matar. Em Bethlem e no templo, quando o menino foi ao Agrado e esteve entre os doutores, renovaram os insanos judeus as suas tentativas e machinações; e por isso o meu Senhor fugiu de Bethlem para o Egypto e d'este a primeira e a segunda vez para a Lusitania; d'onde finalmente sahiu para a grande e heroica missão, que nos remiu no calvario. S. Thiago e S. João eram irmãos do Senhor; veio ás Hespanhas o grande apostolo, e veio tambem S. João, mas nenhum teve o seu martyrio na Peninsula. S. Thiago foi receber á Judêa a sua promessa. S. João foi ao imperio dos Cesares, e á terra do paganismo e do amor depravado da louca e desnudada Venus. Voltaram os seus corpos? que recondito conserva o virginal de S. João? Este sonho póde condizer com a Rodhoma por ter S. João recebido no calvario a santa maternidade da Virgem minha Senhora.

Desde que nascemos para o santo ministerio do actual desaggravo de dezeseis gerações, um presentimento feroz persegue e incita a indomita heresia para nos matar; o veneno é a sua arma; actualmente só o mais decidido milagre me podia salvar da furia; eu presagío que o meio heretico só tende a abysmar os seus altares e instrumentos. O tetrico sonho da ira impotente subjuga os escravos que se irritam e despedaçam, como as ondas que quebram contra o invulneravel rochedo, e se abysmam pela inutil furia do seu audaz commettimento. Os judeus levaram a sua insania ao cabo, e veio o maior castigo do povo e sobre a terra com a justa ira do Senhor: o ultimo propheta foi morto entre o templo e o altar, e a prophecia foi negada para sempre ao judeu, que só tem actualmente a de Jonas, que foi sempre mandado em missão de Ninive e de Babylonia aos pagãos e gentios. A Virgem minha Senhora inaugurou no Carmo o centro da adoração, e transferiu para o novo reino de Sião o docel de sua prophecia aonde se conserva. Se em vez do culto devido á santidade do Senhor o nosso reconhecimento hereditario se convertesse em fel d'injuria, e dessemos ao meu Senhor e á sua Santissima Mãi o calix da maldição dos judeus—deviamos recear que viesse sobre nós o mesmo flagello, e que a falta de desaggravo nos equiparasse para a pena do escarmento ao detestavel povo e aos seus perfidos ministros e traidores.

O nosso centro de desaggravo installou-se na Penha da Estrella e debaixo do docel e da egide da Virgem minha Senhora. Quantos mezes se conspiraram para apagar aquella luz sacrosanta, e comprometteram as suas almas n'este malfadado empenho e ousadia? O seu pensamento era só um, e a nossa morte o unico desenlace de todos os estratagemas. O ministro executor do barbaro decreto trepidou, e desde que chegamos a esta villa até o presente as suas combinações e ardis tem-se resentido da mesma canha e imbecilidade. O coche funerario que me destinava a tyrannia converteu-se na traquitana, que me conduziu á estação; o decreto de despejo que me lançava fóra de casa em Lisboa e d'esta villa ha de executar-se pelo santo direito do talião divino contra os vergonhosos authores, porque todos os seus meios eram d'impios sem fé e sem verdade de juramento, de crueis perseguidores de fieis, e de profanadores dos templos e de sua maxima santidade.

O sonho, que actualmente nos alevanta de toda a desanimação produzida pela heresia, é dos sete seculos magros, que hão de ser coroados por outros sete seculos pingues e ferteis, heroicos e cheios de fartas e de briosas chronicas, que encerrem as façanhas dos fieis, a succinta historia dos povos, e o precinto da catholica santidade e igualdade de todos os filhos e do mesmo Pai santo e commum no céo e na terra. As casas de Bragança e de S. Bruno sempre foram perseguidas pelos nobres e falsos fidalgos: todas as suas façanhas tem sido commandadas por pessoas de familia no fervor do nobre enthusiasmo do povo, executadas pelo devaneio e pelo assombro do milagre, por ficarem em esquecimento e sem galardão do mundo e só com o grande e extraordinariamente mais real e verdadeiro do proprio som e merecimento: por esta razão faltam as estatuas aos heroes, e vem no meio da enxurrada as obscenas dos mais tredos e falsos pyrilampos.

Os seculos, que estão para succeder invocam a audaz cooperação do povo, e exigem que o novo heroe seja o mesmo comicio, e a centuria, que defender o templo e desvanecer o seu culto. É necessario que a Terra Santa reuna o povo mais digno, e que a authoridade e o poder divino unam o capitel e a cimalha do novo edifficio, e commandem a pureza da fé e a sua excellente doutrina com o mais sonoro e metallico alarido de desaggravo e de arguição. Todas as nossas instituições tendem ao valente ensejo d'esta restauração do povo para o fazer nobre e para o exaltar pelo martyrio e por meio da virgindade e da santidade da crença; a corrupção corre em veias e carcome o amago do tronco que apodrece e cahe: a nova arvore estende as suas raizes por todo o mundo e ha de cobrir com os seus copados ramos todas as plagas, e zonas da esphera: o castello que era do procere o do conde ou do rei e senhor, será de Deus e do padre santo, do fiel e do mais devoto e digno de seu sublime culto. Todos os heroes rivalisarão com os filhos de Javão, e dar-se-ha o premio ao que desvanecer maior virtude e sacrificio com mais encarecidas provas, e com mais heroico desinteresse.

O snr. D. Affonso Henriques vestia o talar ecclesiastico para fallar do pulpito, e para narrar as maravilhas de todas as suas victorias, se vinha ao reino algum rei ou principe estrangeiro convidado pelo desejo de estudar as nossas proezas e façanhas e para se informar do seu alarido: o grande monarcha não desejava fallar de assento sem subir ao pulpito, porque n'esta cadeira de verdade recebia as suas inspirações e mais fortes commoções e graças. Todos os estrangeiros estranhavam o monarcha, e o seu habito de paz, que era o talar, senão a batina de estudante: quando o viam subir ao pulpito alguns riam; depois que sentiam as commoções de sua eloquencia e persuasão louvavam o orador e choravam quando o orador chorava, commoviam-se e aplaudiam segundo o costume do tempo com tão fortes demonstrações e signaes, que chegavam a interromper o discurso. N'este emphase de sua justa admiração pediam ao rei que repetisse, e como nada levava estudado progredia ao acaso e sempre com o maior espanto e alarido deixava o auditorio, e corriam a tomar o seu supplicio e disciplina pelo desacato que os mouros commetteram em Ourique na occasião da batalha contra o Santissimo Sacramento, que estava na ermida de Nossa Senhora do Monte.

Qual é o povo perdido? é o gentio de todos os seculos; que corre com os que correm, que dorme com os que dormem, que se deixa corromper pelos corruptos e se faz perverso por falta de sal e de doutrina que o preserve e conserve. A sociedade de homens notaveis e dos falsos proceres correu atraz da illusão, e levou comsigo e arrastou o maior numero; vive no meio do fôro a parte sã e sensata. Quem acordará os dormintes e levantará do pó os que jazem feridos pela scentelha do maior erro e catastrophe? Só o Senhor nos póde acudir e soccorrer: levantai as vossas vistas, exaltai o vosso pensamento, fazei-vos fortes no reducto das vossas consciencias do desaggravo e esperai do santo alfageme o milagroso remedio e toda a sua recompensa.

Estes são os nossos sonhos. Pensava no sonho de Pharaó o santo José filho de Jacob, e só o Senhor alevantou o véo do mysterio, e deu ao mysterioso numero a sua santa e verdadeira significação. Ha sete peccados mortaes, e contra estes outras sete virtudes, mas vem primeiro os peccados ao mundo antes que venha o remedio da virtude que supprime o peccado correspondente: a sabedoria consiste em desvanecer a virtude para que não tenha lugar o peccado, que a escurece e affronta. Este terá sido o sonho e o constante pensamento da casa de Bragança no decurso de dezeseis gerações? é certo que só o Senhor nos concede o mysterio d'este desvanecimento e a sua gloria futura; venha o povo, e furte a virtude ao merito, e deixe a torpeza dos bens aos vis forasteiros, que surgem do inferno por tão negro e absurdo estipendio, e usurpação.

No meio dos seus sonhos e prophecias o santo rei d'Ourique previa e affirmava, que o seu successor da 16.ª geração havia de ser rei e papa, e era tão firme n'esta sincera e antecipada previsão, que algumas vezes via a propria figura, e se compadecia das tramas e desgraças que o haviam de perseguir, e dos males que haviam de sobrevir ao reino, e das heresias em que já o via e considerava submerso e como amortecido pelo diuturno interdicto e geral perdição. S. Affonso devia aos estrangeiros e ás cruzadas extraordinarios favores; o seu pensamento de grande estadista e o grande desejo que teve de ser util á santa causa da fé, fez com que pedisse e solicitasse de sua santidade um decreto para que o nosso reino fosse considerado reino da cruzada com todas as suas indulgencias que obteve a grande contentamento de todos os cavalleiros da cruz, e com grande desgosto e tristeza de todos os falsos monstros do culto, e membros podres da nobreza. Este decreto causou grande alarma, o povo defendeu a medida, que até os ecclesiasticos combatiam com muito alarido de fingido zelo pelo bem da Igreja. Este conflicto ameaçou o reino nascente, veio o nuncio de Roma, lançou interdicto, e triumphou o rei com o povo, porque seu coração era real e tão recto e justo, que não soffria a menor injuria do templo, e desaggravava os desacatos dos mouros com o mais cruel supplicio de seu corpo e quasi á vista do povo e para o edifficar como exemplo. A este tempo já muitos ecclesiasticos seguiam o ocio da paz e principiavam a gozar e appetecer as delicias de Capua: os simoniacos engordavam capões e perús para as festas do anno e deixavam nús os pobres, e desamparados os orphãos e as viuvas; que faria o rei? mendigar o soccorro do padre santo e a virtude de sua santa indulgencia e receber do Divino Salvador a inauferivel do futuro remedio e prophecia, e de Roma a anachronica certeza dos males que principiavam a devorar a santidade da curia e a corcomer o corpo d'aquella santa e bemfazeja arvore.

A prophecia é dada ao rei; foi David propheta e Salomão, Pharaó sonhava, e o rei até quando sonha deve prophetisar para que o povo descance e confie na sua sabedoria e providencia. Todos os prophetas tiveram honras reaes e de santos, recebiam corôa de martyres e eram mandados ao povo, ou por causa do povo aos seus reis e ministros do governo.