Descobriram os nossos antigos o Brazil, e fundaram n'elle a maior colonia do mundo, que se fundou sem o vicio dos perseguidos e dos emigrados religiosos e politicos; e os que tiveram esta gloria são desprezados, e os seus herdeiros perseguidos. O usurpador que se fez possuidor para proclamar o falso principio de independente, e que entregou os estados ao ouro, e ao poder da Inglaterra foi levantado e exaltado; porque emprehendeu entre nós a mesma façanha e legou o seu vil commettimento ao partido mais vil e fementido, atroz e degenerado, que pode organisar-se em nome de uma seita protestante e heretica para commetter esta grande aleivosia e diabolico mandato. D. Affonso Henriques ainda dorme o somno dos seculos; os seus heroicos serviços ainda não foram julgados pela posteridade; parece que o grande vulto espera que a fama das suas façanhas o alevante sobre todos os porticos e sobre a fronteira de todos os templos e igrejas catholicas. Que fará a mais hedionda e vil injuria d'este sonho abominavel dos herejes? Levanta o impio e exacerba o catholico, vende a terra da patria; e, para ter sepultura em paiz protestante, pactua com o demonio a quem entregou a alma a traição e o aleive; o seu desdouro é o mais abominavel tramite e caminho do inferno.
Fez em Lisboa injuria ao veneravel corpo e santelmo d'el-rei o snr. D. Manoel, meu presado avô. Os usurpadores apodrecem em seus sarcophagos, e os reis legitimos recendem e perfumam a desfeita porque não legaram a vileza do seu coração, deixaram os estados, os eternos monumentos, os mosteiros e a maior grandeza do reino, e não roubaram nem atraiçoaram nem renegaram de Deus nem da patria, nem abandonaram a justiça nem venderam as suas consciencias.
Como pôde a nação chegar apesar de tão emeritas virtudes e de tão relevantes serviços ao ultimo estado de degradação e vilipendio? Devemos presumir que a nação sempre foi perversa, e que os heroes foram poucos mas estrenuos, e tão briosos e fieis que conquistaram do mundo a maior fama, do Senhor o mais desusado e grandioso favor e auxilio. São poucos os heroes? quantos monarchas illustraram o throno? quantos fieis e valentes venceram em Ourique? quantos foram os mais dignos missionarios do Oriente? quantos Pachecos e Albuquerques? quantos Castros e Mascarenhas? quantos Magalhães e Gamas? Aonde estão as suas estatuas? que é feito do corpo santo de S. Francisco Xavier?
São estas as perguntas que vos dirijo, as invectivas que hei de fazer-vos até o fim: eis o martyrio que appeteço e a santidade que o Senhor me concede, como propheta, para vingar a injuria de sete seculos, o sonho e o pesadelo do mais atroz delirio. Os filhos de S. Francisco, de S. Domingos, de S. Theotonio, e de Santo Antonio que dormem nos claustros dos extinctos e abominados conventos; os monges negros de S. Bento, os inimitaveis de S. Bernardo, toda a familia de Santo Agostinho, os proceres d'Alcantara e de Bruno fallam pela nossa bocca, e dirigem o nosso pensamento n'esta humilde e generosa tarefa. Que fizeste, ó impio, de tanta santidade que perverteste, e da sua grande fama e publica utilidade?
No sonho de sete seculos não pôde a sabedoria de tão grandes heroes levantar o eterno monumento do actual desdouro e da sua fatal cegueira? Somos nós o vingador das injurias, porque o Senhor nos conserva e defende, afouta e encaminha para o nosso honroso e santo ministerio. Está por terra o edifficio de nossa grandeza; vê o mundo, admira e contemplam os anjos a nossa actual miseria e compadecem-se d'este ruinoso estado: só não se move o povo, só o interdicto dorme o maldito somno da morte, e não delira nem appetece a eterna felicidade de sua salvação e liberdade!
Sabemos que o actual abominio tenta exterminar toda a geração d'ourique, e cassar as promessas do Divino Salvador matando o Promettido e Desejado; e d'este projecto ri e zomba, e escarnece a nossa fé pela vaidade do sonho ser digna e merecedora de mais prompto desprezo; mas não basta que o Senhor defenda uma causa para que se considere heroica: convém que o homem e o povo eleito e escolhido para a façanha se mostrem dignos, timbrosos, sobranceiros ao maior perigo e intrepidos e confiados na justiça do commettimento, e na gloria da Divina Protecção. O sonho, que desdoura o homem, cerca de terror o timido e fugitivo escravo do demonio, porque não confia no poder do seu senhor, nem na justiça da causa nem na certeza do seu delicto.
Todas as vezes que me occorre algum nobre pensamento do Divino Amor e do seu desaggravo, não posso resistir ao desejo de o exarar. O amor de Deus é um sentimento imperioso, porque Deus é o summo bem: o que tem a felicidade de vêr o Senhor não póde deixar de o amar sobre todas as cousas; porque assim o exige a natureza do bem que nos arrebata. Se o triste e mesquinho não ama o Senhor sobre todas as cousas, outro espirito assenhorêa a alma do possesso, e pode dizer-se que impera n'ella o demonio. Quem não é por mim é contra mim. A manifestação mais perfeita de amor é o desaggravo da offensa; o que não desaggrava não ama: porque ao summo bem corresponde o amor mais perfeito: não amando, aborrece; e, na presença da injuria e do escandalo do desacato, toma sobre si e á sua conta toda a cumplicidade da offensa, e faz-se digno do mesmo rigor da pena, e do maior castigo devido á perpetração do delicto.
Os mais revezados delictos maculam a geração actual; é uma herança que recorda a dureza de Pharaó e a obstinada e cruel memoria de Herodes e Pilatos. No Egypto a vara do poder, na Judêa o Divino Verbo, que veio ao mundo para nos regenerar, pesam e sentem a falta de desaggravo, e só lamentam a dureza do povo e a sua affectada cegueira. É um sonho, que sempre se repete, e que manifesta bem palpavel n'este mundo das illusões o irresistivel poder do maleficio, que actua sobre os escravos do peccado e filhos da ira e da sua perversa condição. Fuja o homem de commetter o peccado imperdoavel; porque em sua fatal herança não só deturpa e cega, senão que domina e arrasta a alma para a maior perdição, e para o fundo do abysmo.
A quantos d'estes póde aproveitar o desaggravo e o martyrio ninguem ha que ignore, e muitos desejam ser purificados pelos heroicos processos da santa penitencia da fé, mas ninguem os sujeita, nem ha força que os violente; e tremem do exito, vivem no fóco da calumnia e do erro, da perseguição, e d'um para outro dia soffrem a tremenda metempsychose da furia do dragão. Fallamos ao povo que conserva o direito de propria consciencia e algum vislumbre de boa fé para que procure e abrace a salvação da indulgencia e do martyrio, que tem diante.
Quando o fiel d'uma balança pende por força irresistivel para o abysmo, são felizes os que se lançam na outra concha; porque a força contraria os impelle e ascende mais do que a natural virtude dos seus corpos diaphanos. Que bella monção para tão feliz viagem! que bello sonho para os sete seculos venturosos que se hão de completar na eternidade!