As noticias, historicamente relativas á familia ducal e real de Bragança, publicadas n'estes livrinhos, não pesam sobre a memoria do esclarecido arcebispo;—são todas de minha lavra, e de minha responsabilidade perante os doutos. Todavia, se alguem me rastreia, n'esse lavor meramente historico, o insidioso plano de aluir o throno, sou obrigado a declarar que não se acham ainda bastantemente decisivas as minhas intenções a respeito de sua magestade, nem me parece que cheguem as cousas a termos de eu ter de desthronar o snr. D. Luiz I. E, dado que razões imprevistas, mas rijas, me impulsem a exterminar a casa de Bragança, hei de fazer quanto em mim couber, na hora do maior perigo, por ter mão... na manta real. Por onde se vê que, em materia de Coriolanos, Belisarios, e outros, ainda os ha por aqui, na patria dos Pachecos. Iniquissimamente, pois, me culpa o escriptor referido, quando me arrola entre os obreiros subterraneos da oligarchia; e ao mesmo tempo incute pavores no animo d'um alto personagem. Por causa d'estes alarmas, temos visto a timidez que se denuncia, e denota pouca firmeza de consciencia, debilidade de espirito, incerteza juridica do lugar que se occupa, braço inerme para a defensão da real e sagrada propriedade. Se conhecem a pusillanimidade d'aquelle a quem cumpre ser forte, e até heroe no cairel da voragem, não lhe mettam espantos na alma com phantasmas; robusteçam-no para a provação, quando a hora troar, a hora maldita em que o povo açacala as garras, e golfa das tabernas com bramidos de leão. Se não querem prevenir as catastrophes, porque não ha prevenções contra a fatalidade, não se finjam previstos, pondo estas innocentes Noites a espreitar Cesar pelo olho esquerdo de Bruto.
Quanto ao arcebispo de Mitylene, não se diga que elle me deixou, como herança de rancores demagogos uns papeis, de que eu estou estillando petroleo para o holocausto da casa de Bragança. Posto que o celebre jurisconsulto, depois de alienado, se imaginasse proscripto dos seus direitos ao ducado brigantino, nunca lhe coou da penna de ferro injuria contra a familia real, que era, pouco mais ou menos, a d'elle.
Verá o leitor, no seguinte artigo, quanto o vidente de mundos defezos ás pessoas que se dizem ajuizadas, respeitava seus regios predecessores, e nomeadamente seu avô o snr. rei D. Manoel, e seu mais remoto avô o snr. D. Affonso Henriques, que elle viu em Villa-Real, trezentos annos antes da povoação d'aquella villa.
Verdadeiramente, a gente não sabe se os doudos são os que vêem cousas estranhas, se somos nós que não vemos senão trivialidades. Gerard de Nerval pende a crêr que os doudos são os que tem o condão extraordinario de vêr o invisivel aos parvoeirões. Regra geral: assim que um homem descamba da linha recta que vai desde o almoço até á cêa através do jantar, a razão humana desconfia d'elle. Se este homem suspeito, unicamente, lesa os seus interesses, chamam-lhe, com piedosa indulgencia, tolo: se, por demasia de espiritualidades, damnifica os interesses alheios, estigmatisam-o de mentecapto. Qualquer das qualificações impellem á morte moral. Eu ainda não atinei bem com a denominação ajustada ao doutor D. Domingos de Magalhães, porque no seu modo de escrever historia, philosophia e moral, se revela muito mais acerto, critica e sciencia que nos livros de uns homens que não se acham bem definidos nas diversas doenças apyreticas do cerebro. Eis aqui um rapto de luz que elle denominou:
SONHO
(INEDITO DO ARCEBISPO DE MITYLENE, ESCRIPTO NO PERIODO DA ALIENAÇÃO)
No decurso de dezeseis gerações não veio ao mundo nem assomou ao pensamento de nenhum sabio o que a actual inspiração ensina, e communica a todos pelo modo mais extraordinario e divino, ou pela fonte mais pura e heroica do santo e actual desaggravo. A Divina Providencia jámais se revelou tão benefica e misericordiosa, nem tão solicita e desvanecida para com a pobre e triste humanidade, que escurece o beneficio e parece desprezar o seu author divino, só pela torpe e abominavel gloria do seu desprezado egoismo e da sua indomita soberba. Estava já endurecido o coração de Pharaó, e não consentiu a sua vil injuria que o infinito poder da vara e a sua misericordia o livrassem da ira do mar e do justo castigo das aguas.
O sonho actual é de outro Pharaó, que só viu as sete vaccas gordas, e não quiz ou não pôde vêr as magras, e as deixou todas para traz e desprezadas em poder de herejes e de inimigos do santo nome e da fé. Diz a historia que Pharaó viu primeiramente sete vaccas gordas, e que a estas se seguiram sete vaccas muito magras e muito definhadas, que mal podiam sahir do rio aonde se banhavam e bebiam. Ás nossas sete vaccas são sete seculos de dezeseis gerações, que deixamos para traz das costas, magros, definhados e proscriptos, que terminaram pela mais negra, medonha e absoluta penuria de todo o recurso e remedio. A mãi e o pai comem a carne do filho, os mortos jazem sem sepultura, a impiedade triumpha, a verdadeira fé anda foragida, a injuria do Senhor substitue o culto, e sobre as cadeiras de Moysés já não se assentam os escribas e os phariseus; os mais depravados inimigos perseguem em nome do Senhor todos os seus santos ministros, e predizem pelas suas obras o fim do mundo, e a necessidade do ultimo e geral escarmento.
Tal é o quadro da abominavel heresia, e da mais atroz injuria, que se pode levantar contra o Senhor em nome do demonio sem o proclamar como Anti-Christo; o vituperio de tão grande affronta avexa os filhos do Divino Amor, o mais horrivel pesadelo coarcta as suas faculdades, e o delirio do sonho chama e reclama a necessidade do mais santo esconjuro, e da mais afouta e intrepida penitencia. Felizes as mulheres estereis, e mil vezes mais acordado, ou menos infeliz e desprezivel será o aborto, que não recebeu a agua do baptismo nem chegou a uso de razão para não soffrer a injuria da maldita geração do peccado, e do seu enorme e horroroso castigo.
Passados sete seculos como um sonho, quebraram o preito, apagaram a gloria, e amofinaram o beneficio de seiscentas batalhas e de outras tantas victorias, riscaram das paginas mais gloriosas da nossa historia monumentos eternos para escrever o geroglifico da maior vileza que nega as façanhas aos heroes, e depõe a estatua do seu pedestal para a substituirem pela mais desprezivel do seculo, e pelo que tiver deixado nome mais injurioso, conspurcado e escravo.