[O ULTIMO CARRASCO]
Luiz Negro é o nome, terrivelmente adjectivado, do ultimo carrasco legal, que morreu no Limoeiro, ha poucos mezes.
Na provincia transmontana contam-se ainda, nos saraus aldeãos, as lendas sinistras do facinoroso soldado de dragões de Chaves.
O Ultimo carrasco é o bosquejo d'esse personagem, tão decahido da sua antiga importancia, mas tão considerado ainda no funccionalismo, que lhe concederam as honras, quando o desbalizaram do ordenado.
O snr. visconde de Ouguella possue, do proprio pulso de Luiz Negro, o escorço dos factos que o constituiram homicida legal, com estipendio; todavia, não podemos favorecer a memoria d'este executor da justiça, asseverando que elle cumpriu os seus deveres; por quanto, do contexto da obra vêr-se-ha que Luiz Negro, quando tinha de enforcar, pagava a quem o substituisse.
No prologo do Ultimo carrasco, no recamado estylo com que todos os seus escriptos se opulentam, o snr. visconde de Ouguella detem-se na antiga idéa de abolição da pena de morte. Entre os mais energicos apostolos d'essa humanissima missão, está Carlos Ramires Coutinho, desde que passou dos bancos da universidade para a tribuna forense.
Os primeiros brados, que resoaram na imprensa, nos tribunaes e na consciencia publica, sahiram da alma liberrimamente generosa d'aquelle moço. Os annos volveram-se, os attritos do desengano desbotaram-lhe o verniz de muitas e queridas illusões; mas o sentir profundamente humanitario lá se lhe insurge, apesar dos dissabores, em pró das classes cuja emancipação os preconceitos retardam. Nem as insignias titulares, nem o egoismo tão irmanado com os bens da fortuna enervaram a alliança que travou o visconde de Ouguella com as aspirações da democracia. Para elle o titulo não é a inerte e absurda indifferença de fidalgo, nem da superabundancia de meios surtiu a atrophia dos fidalgos sentimentos que a pobreza, talvez, obrigasse a transigir com a fatalidade das circumstancias.
Queremos dizer que dos escriptos do visconde de Ouguella reveem, principalmente, os impulsos liberaes de um animo que não enfraquece nem descança na lucta. No prefacio, que vai lêr-se, do Ultimo carrasco resaltam um altissimo condoimento da ignorancia, que sob-põem o collo ao jugo, e uma vehemente invectiva aos que, se podessem, apagariam a immensa luz que lhes abriu caminho por onde se passaram dos tamboretes de couro para os flaccidos sophás.