É dolorosa a tarefa.

São pungentes, tambem, as recordações.

Todavia a feição singular d'este nosso seculo exige imperiosamente estas luctas, e obriga-nos a estas pugnas, as mais das vezes, inglorias.

Seja assim.

Tão rapidamente se photographam, hoje, as metamorphoses dos apostolos, allucinam-se com tanta promptidão os espiritos, e desvairam-se as consciencias em tão loucas vertigens, que temos nós—nós, os exploradores obscuros, e audazes obreiros—de lidar e mourejar constantemente, para affirmar, a cada hora, estes principios sacrosantos, que consubstanciam, e determinam a religião do dever.

Ainda ha pouco, uma das mais esplendidas intelligencias da peninsula, rica de todas as opulencias d'este nosso sólo do occidente, marcada com o sello divino, precursora da boa nova, sentinella e espia vigilante das mais puras crenças em que se basêa a democracia, esqueceu, nos delirios que dá o mando e o poder, todas as inspirações, e toda a religião do povo—religião das massas, que, elevando-o, o engrandeceram e divinisaram—e, acommettido pelas vaidades pueris dos Nabuchos de todos os tempos, exilou, deportou, e fusilou como se fôra elle—elle, o tribuno das escolas e dos congressos—um duque d'Alva nas ferocidades das conquistas do imperio de Carlos V, ou um deploravel Telles Jordão, nascido para sicario de todas as reacções.

É triste, é lamentavel, é afflictivo, que o Demosthenes da peninsula hispanica, berço na actualidade da familia mais heroica da raça latina, deslembre e olvide, nas allucinações, que ensombram o fastigio do poder, principios inconcussos e sagrados, e venha dar senão razão, pelo menos pretexto a essas hordas barbaras de hunos, vandalos ou não sabemos se de bandoleiros, que atravessam e devastam as Vascongadas, a Navarra, e a Catalunha, missionando crenças, que seriam ridiculas e apenas abjectas, n'este seculo, se um rasto de sangue, de fogo, e de metralha não enchesse de terror e de luto as povoações por onde caminham e perpassam.

Não ha razão d'estado, não ha lei de salvação popular, não ha causa nenhuma, por mais ardilosa, machiavelica ou especiosa que seja, que consagre nunca, e em caso nenhum, uma offensa feita ás leis geraes por que se rege a humanidade.

A vida humana é inviolavel sempre, e para todo o sempre.

Errem os homens—embora!—Succumbam momentaneamente as idéas grandiosas de emancipação dos povos—resignemo-nos, e esperemos. Mas salvemos todos esta arca santa, este sacrario das mais nobres aspirações da democracia.