Dêmos ao sacer esto das doze taboas a unica e verdadeira interpretação das sociedades modernas.

Não votemos o criminoso, qualquer que seja o seu delicto ou a penalidade em que incorreu, aos deuses infernaes. Rehabilitando-o, votemol-o á sociedade, ás verdadeiras crenças, á familia, e á patria.

A Vida do homem é sagrada.

Como são sagrados todos os direitos absolutos, como é sagrado e mysterioso o fim do homem, como é sagrada, indescortinavel, desconhecida e insondavel a causa da existencia humana, a razão da vida harmoniosa do universo, o pensamento supremo, que presidiu a todos estes esplendores, que se formulam e desenrolam nas magnificencias da creação.

E é o homem, na pequenez da mais miserrima e limitada existencia, na ignorancia fatal das suas transformações futuras, nas trevas densissimas do seu porvir, que diz a outro homem—a um irmão seu, ao Abel da sua raça: «Eu mato-te, assassino-te, á face d'este sol esplendido, em presença de toda a creação, com a consciencia segura e tranquilla de que Deus me ouve, me vê, e me escuta, em nome d'umas leis que eu inventei, e escrevi,—por que eu, homem, pelo facto de ser legislador e juiz arvoro-me em carrasco, e rasgo e devasso consciencias, analyso e preso intenções, forjo e imagino crenças, e condemno em nome de Deus vivo, e da justiça absoluta de que me faço interprete, magistrado e saião!»

Crêmos firmemente que a misericordia divina alcança ainda estas sinistras e ferozes aberrações dos verdugos e dos algozes.

Perdoai a todos, Senhor, e quando o perdão da vossa infinita bondade, n'esses effluvios repassados de sentimento, como pai e creador, descer sobre nós, que a vaidade pharisaica, o orgulho ignobil de todos os sacerdocios, e de todas as theocracias, scepticismo inconsciente de todas as ignorancias, e a blasphemia perdoavel, nascida do desespero, e da miseria, achem, nas pregas do vosso manto d'esquecimento, lugar onde se abriguem, pela omnipotencia do vosso poder, e pela misericordia infinita dos vossos designios.

Que a religião do futuro seja um hymno de gloria, um hossana de perpetuo louvor, onde só a myrrha e o incenso subam aos vossos altares—e que as carnificinas humanas desde os homicidios nos dolmens dos deicidas até ás fogueiras do fanatismo catholico desappareçam e se extingam em presença do verdadeiro culto, que o ente humilde, e inconsciente da sua missão, na terra, presta á sublime causa, ao Ente que regula e dirige o universo.

VISCONDE DE OUGUELLA.