[CURIOSIDADES ARTISTICAS]
No principio d'este seculo, as melhores pinturas ornamentavam as salas dos marquezes de Borba, de Angeja, de Abrantes, de Tancos, de Lavradio, de Bellas, e do visconde da Bahia que primava em originaes de grandes mestres. Manoel Joaquim Collaço e um padre João Chrysostomo, ambos de Lisboa, e ha muitos annos fallecidos, colleccionaram excellentes quadros. O possuidor das mais ricas estampas era, por esse tempo, um José Joaquim de Castro, vulgarmente chamado o Agua de Inglaterra, não sabemos se em razão de a preparar, se por descender do hebreu Jacob de Castro Sarmento que a inventou.
Fr. José Mayne, confessor de D. Pedro III, legou á academia das sciencias o seu museu, e não sei se a sua galeria dos melhores pintores coevos, em que sobresahiam os quadros de Joaquim Manoel da Rocha, habilissimo na pintura da natureza morta. Tambem fr. Manoel do Cenaculo, arcebispo de Evora, colleccionou soberbas pinturas, que tiveram variados e obscuros destinos.
No convento de Bemfica houve um quadro original de Wandyck: era o da Crucifixão. Presume-se que pouco mais possue Portugal d'aquelle grande artista. Na sala do marquez de Alegrete (Penalva), havia um quadro de Raphael. Existia outro na igreja do seminario de Brancannes. Fallamos sempre no preterito, porque duvidamos que taes preciosidades se conservem, assalteadas, a um tempo, pelo desamor das artes e pelo amor ao dinheiro.
No templo de Belem ha tres quadros de Manoel Campello. O que representa Jesus Christo vergado sob a cruz está na escada principal do extincto convento. Os outros são o da Coroação dos espinhos e o da Resurreição.
Na tribuna da igreja de S. Roque ha o painel que representa a vinda do Espirito Santo: é de Gaspar Dias. Em 1740, o celebrado Pedro Guaranti arrebatou-se na contemplação d'aquella obra prima. É tambem do insigne pintor o Senhor do Horto que existe em Belem, e o de S. Roque, na capella da invocação do mesmo santo. São obras de primeira execução.
No refeitorio de Belem, o quadro do nascimento de Jesus é do celebre Simão Rodrigues. De fr. Marcos da Cruz, coevo de D. João III, havia na igreja do Carmo, de Lisboa, o painel de Santa Maria Magdalena de Paris. Os do arco cruzeiro de Jesus, já damnificados no fim do seculo passado, tambem eram d'elle ou se lhe attribuiam. (Vej. Mem. hist. do ministerio do pulpito, por fr. Manoel do Cenaculo, pag. 135).
De quadros de Vieira Lusitano temos antiga noticia de existirem o de Santo Agostinho na portaria do convento da Graça, o de S. Francisco na capella-mór da igreja, o de S. Pedro e S. Paulo em casa dos condes de Povolide, e alguns na igreja dos Paulistas.
Na casa de Tancos (Atalaias) estiveram oito paineis de Jacob Bassano, pelos quaes o principe Eugenio (1663-1736) mandou offerecer duzentos mil cruzados, que foram rejeitados. Entre aquelles inestimaveis quadros havia um de Leonardo de Vinci, alguns de Corregio, de Miguel Angelo, de Salviati, e de Antonio Tempesta. Um primoroso Luiz XIV a cavallo era do famigerado Lebrun.