Esperei ancioso pelo dia seguinte.

Na solidão da cadeia, entregue por tão longas horas da tarde e da noite ao silencio e á reclusão, ignorando a sorte que me esperava, e os planos que forjaram os meus inimigos, buscava todas as distracções, que o acaso ou a sorte me depararam, para sahir do torpôr moral e da tristeza profunda que me ia n'alma.

As horas corriam tão lentas e vagarosas, que me aconteceu, por vezes, esperar, com prazer, os momentos em que os guardas vinham, no silencio da noite, correr-me os ferros da minha janella, para se confirmarem e terem a certeza de que eu não tentava fugir. Sorria-me sempre a este acto nocturno e solemne da minha vida de prisioneiro d'estado.

VISCONDE DE OUGUELLA.


[O DESASTROSO FIM DE DAMIÃO DE GOES]

Não era boa pessoa. Tinha talento, fazia chronicas de reis, escrevia em variados assumptos; mas era mordacissimo, deslinguado, e desluzia as gerações dos seus inimigos com a injustiça propria da sua malquerença.

D. Antonio de Athayde, conde da Castanheira, e valido de D. João III, foi um dos fidalgos mais aggravados.

Uma satyra appareceu na côrte por aquelle tempo, precisamente no anno 1554. Um homem vestido de frade a entregou pessoalmente ao rei.

Diogo de Paiva de Andrade (Memorias ineditas) refere assim o caso: