Um frade capucho, ou, como tambem se disse, pessoa que vestiu aquelle habito, procurou com grande empenho fallar a D. João III, que estava no paço da Ribeira, em occasião que se recolhia a dormir a sesta; e, pelo esforço que fazia em se lhe dar recado, se deu parte a el-rei; o qual mandou entrar o frade. Este se queixou extraordinariamente de um regulo que havia na sua terra, pedindo a sua alteza desaggravasse o opprimido povo; e, acabando de fallar, se retirou, entregando-lhe um papel. Abriu el-rei o papel; e, vendo que era uma satyra contra o conde da Castanheira, D. Antonio de Athayde, ordenou logo fossem em busca do frade; e, por maiores diligencias que se fizeram, não foi possivel encontral-o. Este papel guardou el-rei na sua guarda-roupa, d'onde o pôde haver Damião de Goes que, copiando-o, o deixou junto a um nobiliario, que tinha escripto das familias d'este reino, e d'aqui teve origem, sem fundamento, a seita puritana; porque, depois de descompôr o conde na figura e nos costumes, o infamou na familia, nas seguintes quadras:
Mestre João sacerdote,
de Barcellos natural,
houve de uma moura tal
um filho de boa sorte.
Pero Esteves se chamou;
honradamente vivia;
por amores se casou
com uma formosa judia.
D'este (pois nada se esconde)
nasceu Maria Pinheira,
mãi da mãi d'aquelle conde
que é conde da Castanheira.
Em outro lanço das Memorias, Diogo de Paiva, reportando-se novamente a este caso que estrondeou n'aquella época, acrescenta:
Damião de Goes, bem conhecido n'este reino por seus escriptos, foi grande inimigo de D. Antonio de Athayde, 1.º conde da Castanheira, e valido de D. João III; porque apparecendo em palacio a celebre satyra contra o mesmo conde, que deu causa á murmuração de Maria Pinheira, Damião de Goes a ajuntou a um nobiliario que tinha escripto;—sabendo-o o conde, o esperou na rua Nova de Lisboa uma noite, e lhe deu com um pau. Augmentou-se de parte a parte a inimizade; e, achando-se D. Antonio de Athayde na casa da India uma manhã, como vedor da fazenda, e Damião de Goes como feitor de Flandres, que havia occupado, ahi se travaram de razões, e o conde lhe deu com umas luvas na cara.
A satyra, que D. João III releu muitissimas vezes, e outras tantas fechou no contador dos seus papeis particularissimos, devia de ser acerba para o vingativo conde, e mortalmente funesta para Damião de Goes.
O leitor, sem duvida, deseja vêl-a, porque, se a não viu manuscripta, com certeza a não encontrou ainda impressa. As tres quadras trasladadas por Diogo de Paiva são as unicas apenas conhecidas dos leitores de genealogias; mas o mordaz poema comprehende sessenta e quatro quadras.
Por não empecer á curiosidade, dou primeiro o traslado da satyra; hão de vêr depois outras cousas importantissimas no caso.
TROVAS
QUE SE MANDARAM DAR A EL-REI D. JOÃO III POR UM FRADE DE SANTO ANTONIO, DOUS ANNOS ANTES DA SUA MORTE, E AS TINHA NA SUA GAVETA, E AS LIA ALGUMAS VEZES, E AS MANDOU QUEIMAR POR MANOEL DE S. THIAGO NO DIA QUE VEIO DA MISERICORDIA, TRES DIAS ANTES DO SEU FALLECIMENTO QUE FOI A 22 DE JUNHO DO ANNO DE CHRISTO DE 1557.
1
Deus sabe que esconder
a minha tenção não posso;
e, por seu serviço e vosso,
digo quanto aqui disser.
2
Se sobre isto o dessirvo,
com a clemencia que sóhe,
como a vassallo e captivo,
que o ama, me perdoe.
3
Um poeta dos latinos
a um seu amigo escrevia:
«Já agora a terra cria
homens maus e pequeninos.!»
4
Como que, com a idade
tudo cança e nos esquece,
afóra só a maldade,
que esta sempre prevalece.
5
Homens bons de muito ser
n'esta terra haver sohia;
ainda os ha; mais haveria,
se os deixassem viver.
6
Os que mettem pelos portos
mercadorias defezas,
com que os mortos são mortos
e os vivos são suas prezas,
7
Esses no reino metteram
mentiras e judiarias,
baixezas e hypocrisias
que toda esta terra encheram.
8
E tanto quê, mór valia
tem já isto em Portugal
que droga, cravo e tincal,
nobreza e cavallaria.
9
Mas de um, que tudo pende[1],
vos direi, senhor, um pouco,
em que me tenhaes por louco;
que Deus calar me defende.
10
Pois dá brado sem cessar—
diz Izaias—e canta;
como trombeta, levanta
tua voz sem descançar.
11
E elle, que tudo é, tudo
nos salva pela tenção!
Vêr eu tanta perdição
me faz fallar, sendo mudo.
12
E eu, com esta ousadia,
o direi, porém com febre,
que em sua physionomia
vereis melhor que tem lebre.
13
Convenho no que se diz:
Dês que o mundo se criou,
aquelle a quem Deus bem quiz
no rosto lh'o amostrou.
14
Após isto, no cabello,
na sombra tão infernal;
de estopa de ruim pello
nunca se fez bom sayal.
15
As sobrancelhas hirsutas
maiores que abebedouro,
no meio da testa justas,
signal é de mau agouro.
16
Olheiras por meio rosto,
olhos tristes, embaciados,
risinhos falsos, sem gosto,
pensamentos esfaimados.
17
Esfaimados de cobiça,
de soberba e de inveja,
de quantos males atiça
quem todo o mundo deseja.
18
Esfaimado de suspeitas,
enganos e falsidades,
e palavras contrafeitas
onde nunca entrou verdade.
19
Esfaimado por lançar
o reino e terra a perder,
o preço, a honra, e o ser
dos que são para estimar.
20
Esfaimado e esfaimado
por acabar de roubar
honra, fazenda e estado
de quem isto lhe foi dar.
21
Ente do seu parecer,
nas obras do tanta perda,
parentesco deve ter
co' ladrão da mão esquerda.
22
É um sem fundo, adverso
da direita e do envez,
em ser ruim e perverso
da cabeça até aos pés.
23
Do qual ousei affirmar,
a um seu (ninguem se espante)
pardelhos e calcanhar
são mores que por diante.
24
São de ladrão calcanhares,
dizem todos a uma voz,
faz com ratos nos altares
mais lavoura que na foz.
25
Té quando, pois, durará,
Senhor, tão cruel engano,
sortido em tanto damno,
trinta e tres annos ha!
26
Ponhamos em termos isto,
vejamos quem tem razão,
seja juiz Jesus Christo
em quem não ha suspeição.
27
Vossa alteza que achou
n'este homem feito empelado,
que assim se apoderou
de si e do seu estado?
28
Entregues á sua vontade
d'onde dependem as leis,
tudo podem dar os reis,
salvo sua liberdade.
29
Este, tudo tem de vós,
com que se fez soberano,
ingrato, cruel tyranno,
a Deus, a vós e a nós.
30
Este, a mais sobre todos,
este credes desde a...[2]
este tem comvosco os modos
de D. Alvaro de Luna.
31
Senhor, que engano é este?
como não fugis d'este homem
de que tantos outros morrem
por ser o seu mal de peste?
32
Que só dous, tres dias, dura
qualquer outro em vossa graça,
logo de vós a rechaça
sua levação[3] sem cura.
33
Não podem ser todos maus;
elle só é virtuoso,
sendo, á fé, falso raposo
todo cheio de desvaus(?).
34
Faz quanto se lhe antoja;
e diz, quando adoece:
«Quem me visita, me enoja,
Quem o não faz me aborrece.»
35
Olhai lá pelo virote!
Amaes-lhe os cabellinhos?
Criai-lhe bem os filhinhos,
governai por este norte.
36
Em qualquer outra pessoa
passára isto por graça;
que quem não tem cousa sua,
ponha os seus bofes na praça.
37
Malditos sejam os pais
que geraram tão má cousa,
de que todos dão mil ais,
e nenhum fallar não ousa!
38
Por terem reconhecido
ser de vós apoderado,
como Deus é adorado,
como o diabo é temido.
39
Dai ao demo este diabo,
dai este diabo ao demo!
Não é bom, não vol-o gabo,
de governalho e de remo.
40
Não se lhe sabe virtude,
não viu leão nem pelejou,
nem mortos resuscitou,
dos vivos tolhe a saude.
41
Pois que milagres são estes,
que siso, que discrição,
pois que assim lhe concedestes
o da vossa jurisdicção?
42
Se elle fôra sisudo
e discreto em seus modos,
não governára elle tudo,
e mais com dolo de todos.
43
É da gloriosa lei,
que a todos nós ensina,
imigo, e de Deus e Rei
ante quem todos malsina.
44
Se vos tem amor ou não,
não é texto de Hipocrás;
as obras vol-o dirão,
não cureis dos seus salás[4]
45
que são figuras, e basta,
villãs reverenciaduras
com que vos caçou e arrasta
por nossas desaventuras.
46
Que o criado verdadeiro
que tem verdadeiro amor,
mais que o seu, e primeiro,
sente o mal de seu senhor.
47
Nos conselhos, vossa alteza
em elle sómente crê;
sendo tudo na grandeza
da perdição que se vê.
48
Por seu conselho casou
a princeza em Castella[5];
vêde como Deus livrou
este vosso reino d'ella.
49
Por seu conselho deixastes
quatro lugares aos mouros[6];
verdade é que poupastes
com isso grandes thesouros.
50
Mas por seu procurador
poz Deus boas contraditas,
que não fizessem mesquitas
nos templos do Salvador.
51
Ao duque poz suspeição;
que sempre em tudo procede
por ser parente d'Abrahão
e tambem de Mafamede.
52
Que como homem antigo
parece que lhe sabia
a sua genealogia,
que é esta que aqui digo:
53
Mestre João sacerdote,
de Barcellos natural,
houve de uma moura tal
um filho de boa sorte.
54
Pero Esteves se chamou,
honradamente vivia,
por amores se casou
com uma formosa judia.
55
D'este (pois nada se esconde)
nasceu Maria Pinheira,
mãi da mãi d'aquelle conde,
e sua avó verdadeira[7].
56
Vêde se era bem provada
esta sua suspeição;
mas não aproveita já nada
onde sobeja a affeição.
57
E com juiz tão suspeito,
mal inclinado, teimoso,
desalmado, cubiçoso,
todos perdem seu direito.
58
Farto trabalho receio
lhe faz tal sentença dar:
christão e sisudo meio
para o meu aproveitar.
59
Antepor a Deus fazenda
receio, e maior trabalho;
nunca já será atalho
mas rodeio sem emenda.
60
Veja isto vossa alteza
nas cousas que tal causaram,
pois que todas se dobraram
e muito mais a pobreza
61
E como, para poupar
gastos, se faz a tal obra,
Ai! da nação que sossobra,
e dobra-se o individar.
62
Em os taes conselhos vãos
verá o mais a que veio;
nascerão mil de um receio
de mouros aos bons christãos.
63
O trabalho era d'além
em meritoria guerra;
agora, a além e áquem,
em todo o mar e na terra.
64
Vós, senhor, não tenhaes
pouca culpa n'este feito;
peço-vos tudo gemaes
sempre dentro em vosso peito.