O author da satyra era o proprio Damião de Goes, que ajuntára a copia ao seu nobiliario; e o portador d'ella a D. João III fôra um familiar do conde da Portella, inimigo do conde da Castanheira. Assim m'o assevera o padre D. Manoel Caetano de Sousa, aquelle doutissimo theatino, cujas 289 obras em varias linguas catalogou o conde da Ericeira, no livro intitulado Bibliotheca Sousana[8].
Entre os manuscriptos que tenho do insigne academico está a satyra copiada com mais razoavel orthographia da que Damião de Goes interpozera na genealogia do conde da Castanheira.
Formosa, lhe chama elle. A mim me não quiz parecer cousa para mediana admiração. A escóla de Sá de Miranda não póde gabar-se de mui notavel alumno no engenho de Damião de Goes; todavia, mais como documento historico, e pouquissimo como modelo de poesia, a considero dignissima da publicidade.
O esclarecido possuidor da satyra invectiva contra Damião de Goes alcunhando-o de detrahidor de alheios creditos. Eis a textual exprobração do clerigo:
Tudo isto continha aquella formosa satyra de que se não sabem mais que as coplas 53, 54 e 55, as quaes malicia e inveja encommendaram mais á memoria por encerrarem em si falta que se transfunde na posteridade quando não é tão falsamente imposta como n'este caso. Cheias andam as Memorias dos genealogicos de argumentos que convencem de falta aquella impostura; aos quaes eu só acrescento que não quero maior prova de sua falsidade do que vêr aquellas coplas, entre tantas tão maledicas, que dizem de um só homem, e tão grande como aquelle conde foi, tantos defeitos que não cabem em tantos homens vis e facinorosos; e vêr que nas coplas 9, 10 e 11, quer o author com pouco respeito ás divinas escripturas attribuir a impulsos do Espirito Divino os que só são effeitos do espirito maligno que sem duvida levaria comsigo ao inferno o author das coplas, se elle antes de morrer se não desdissesse como se affirma que desdisse. E Deus que é summamente justo quer que aquelle mesmo conde, cuja descendencia, n'esta satyra, se emprehendeu infamar, tivesse uma mui esclarecida descendencia, cheia de varões insignes em santidade, letras, armas, dignidades ecclesiasticas e seculares as maiores que se podem conseguir em Portugal, como sabem os que tem menos que mediana noticia das familias d'este reino, na qual sempre os mais sisudos tiveram estas coplas por falsidade[9].
Damião de Goes, em favores ou desfavores genealogicos, não era extremamente consciencioso. Quando recolheu das suas illustradas viagens, procurou Antonio Carneiro, secretario de estado d'el-rei D. João III, e entregou-lhe um papel em que demonstrava que a sua familia d'elle secretario descendia do duque de Mouton, de França, que aportuguezado dizia «Carneiro». O ministro sorriu-se de zombaria á destampada lisonja, lançou o papel, sem o abrir, ao brazido de uma chaminé, e disse a Damião de Goes:—«Contento-me com que os meus descendentes contem como progenitora a honra com que procuro viver sendo util ao rei e á patria.»
Antonio Carneiro bem sabia que não procedia dos Moutons. Era natural do Porto, e de familia honrada. Foi a Lisboa por dependencia que tinha de Pedro Fernandes de Alcaçova, escrivão da fazenda d'el-rei D. João II. Pedro Fernandes tanto se lhe affeiçoou que, além do prompto despacho, o convidou a ficar na côrte, empregando-o no expediente do seu officio. Como Antonio Carneiro fosse o encarregado de levar a despacho real o sacco dos papeis, n'estas idas ao paço, deu trela ao coração, e requestou D. Brites de Alcaçova, filha do seu protector, e dama da rainha. Casou-se com ella a furto; mas, publicado o delicto, foram ambos degredados para a ilha do Principe. Decorridos annos, as reiteradas supplicas da desterrada commiseraram o coração do pai. Veio Antonio Carneiro para o reino com sua mulher, e logo se habilitou para secretario do despacho universal de D. Manoel, revelando-se politico sagacissimo. Semelhantes honras lhe concedeu D. João III, e com ellas o senhorio da ilha do Principe, onde havia gemido degredado e pobre. Morreu aos 86 annos de idade, deixando larga descendencia.
Se leram Damião de Goes, e a Inquirição de Portugal, estudo biographico de Lopes de Mendonça, ou sequer a summariada noticia que escreveu o snr. Innocencio Francisco da Silva, sabem que o adversario do conde da Castanheira, denunciado pelo padre Simão Rodrigues, foi preso como lutherano nos carceres da inquisição, d'onde o mandaram penitenciar-se em reclusão austera no mosteiro da Batalha.
Concluido o prazo da expiação, quando já orçava pelos setenta annos, transferiu-se a sua casa.
Um dia—diz o snr. Innocencio, atido ao testemunho de memorias contemporaneas—o velho chronista d'el-rei D. Manoel foi encontrado morto, quer de accidente apopletico, quer assassinado por domesticos ou estranhos.