D. Manoel Caetano de Sousa refere que a maledicencia heraldica de Damião de Goes não despontára com a velhice, antes se afiára mais na pedra do rancor aos que elle suspeitava seus inimigos. O segundo conde da Castanheira, desforrando-se dos velhos e renovados ultrajes a Maria Pinheira, mandou criados seus moêrem com saccos de arêa o ancião no pateo de sua mesma casa; e de modo se houveram, que Damião de Goes apenas teve forças que o arrastassem á cama, onde se desprendeu da vida, e mormente da lingua que tantos trabalhos lhe custára.

Esta relação do theatino Sousa encontrei eu confirmada em um Nobiliario de Pinheiros, que pertence ao meu joven e illustrado amigo Vicente Pinheiro de Mello e Almada, filho do primeiro visconde de Pindella, e tambem descendente de D. Maria Pinheira.

Concluo rogando aos barões do meu conhecimento que me não façam moêr com saccos de arêa, se eu alguma vez lhes lembrar a tripeça dos avós. Eu lhes asseguro que, em suppostos casos, levo mais em vista nobilital-os que envilecêl-os pelo honrado trabalho de seus avoengos. Ainda assim, não está no meu animo—diga-se verdade—comparar ss. exc.as aos condes da Castanheira, nem confrontar-me a mim com Damião de Goes. Todos nós somos mais ou menos sapateiros nos baronatos e nas sciencias.

[1] Principia a desancar o valído.

[2] Palavra inintelligivel.

[3] Tumor.

[4] Zumbaias.

[5] D. Isabel. Casou com o imperador Carlos V, em 1525.

[6] Safi e Azamor foram abandonadas á mourisma em 1524. Em seguida, perdemos Arzilla.

[7] Que é conde da Castanheira, variante de Diogo de Paiva.