O movimento de repulsão, que actuou em mim, não fôra tão rapido que o não observasse Luiz Negro.

Observou.

Vi rebentar uma lagrima nas palpebras avermelhadas do velho. Rolou-lhe, depois, deslisando na concavidade das rugas, que lhe sulcavam as faces, e foi em espiral, mansamente, gota a gota, perder-se-lhe na espessura das barbas.

Conheci a affronta e corrigi-a sem detença. Estendi-lhe a mão. Apertou-a o carrasco com uma alegria convulsiva. Havia não sei que traços de gratidão desenhados n'aquella physionomia franca e aberta. Parece-me têl-os ainda impressos na memoria, para remorso eterno da minha consciencia.

«Posso apertar-lhe a mão com desafogo», exclamou elle, com uma voz surda e rouca. Senti-a primeiro no coração antes de me entrar nos ouvidos. «Felizmente, nos abysmos da minha profunda desgraça, resta-me uma consolação...» Hesitou. Depois proseguiu: «consolação unica, que me alumia a existencia, e mitiga os pezares que me vão n'alma: as minhas mãos estão puras, tenho-as immaculadas da forca, não arroxearam jámais, com a soga, a garganta dos padecentes—não derramaram nunca o sangue das victimas que a lei sem respeito pela vida humana, e a que por escarneo chama justiça, obriga outro nomem a derramar.

«Venho, aqui, para o conhecer. Não tenho por costume procurar presos. Nem os busco, nem lhes fallo. Mas sei que é adversario da pena de morte; quiz vêl-o face a fece. Era justo que o carrasco e o homem de lei conversassem em intima convivencia. Estamos em presença um do outro: escutar-nos-hemos reciprocamente.»

E ao passo que Luiz Negro se exprimia assim, perguntava eu a mim mesmo—quantas mãos mais polluidas, menos nobres, menos dignas e menos puras teria eu apertado na minha vida.

Assim como Talleyrand, se Talleyrand era—não me falhando a memoria—asseverava, que a palavra fôra dada ao homem para mentir, tenho para mim que os respeitaveis e acreditados luveiros da nobre cidade de Lisboa foram nascidos e educados, para nos evitarem o contacto de mãos, que nos podem contagiar com estes virus paludosos, que por ahi vão medrando á sombra de magnificas protecções.

Quando o carrasco proferia as ultimas palavras, que acabo de narrar, chegava o meu almoço, trazido por um criado, e acompanhado por outro, que tem sido para mim como o Caleb de Ravenswood, descripto por Walter Scott. Em seguida appareceram amigos meus, trazidos ao Limoeiro pelo desejo de me acompanharem nas horas, em que, sendo-lhes permittida a entrada, eu me achava mais só.

Sentaram-se em torno da mesa. Luiz Negro almoçava comnosco. Fallavamos de tudo. Ignoravam todos o mister do meu novo hospede. Viam um homem avançado em annos, envolto n'um casaco escuro que tinha fórmas de tunica, silencioso, calado e triste, comendo sem nos interromper a nós que esqueciamos as grades, os ferrolhos e os guardas—e arrastados pela nossa imaginação peninsular nem sequer pensavamos no governo.