Fui sempre um conspirador assim—em que pese esta modesta confissão minha ao illustre e meritissimo juiz do processo.
Não direi os nomes dos meus amigos, n'este jovial almoço, com receio de os denunciar ás iras, e aos instinctos odientos dos consules actuaes. Receio que lhes abram assento no santo officio regenerador.
A conversação ia cortada em dialogos cheios de vida, recamados de originalidade e opulentos na elegancia do dizer e na facilidade da phrase. Poderia parecer uma academia litteraria, se não fosse uma enxovia.
Vivia eu, então, n'um carcere que me dizem ter sido morada de Diogo Alves nas vesperas do seu supplicio.
As paredes, se não conservavam tradições de taes luctas legaes, guardavam, pelo menos, os vermes, que formam o apanagio e arrhas d'estes lugubres esponsaes com as nossas cadeias.
Ao terminarmos a nossa refeição, quando o fumo dos cigarros e charutos começava a ennovelar-se em densas espiraes, velando-nos as faces, disse para os meus amigos e alegres convivas, que me penitenciava alli d'um erro grave, erro de lesa polidez, porque os tivera, por tão largo espaço e em tão intima convivencia, com pessoa para elles desconhecida, sem os apresentar, conforme ordenam e exigem as demoradas pragmaticas e minuciosas etiquetas britannicas.
Ninguem o conhecia. Só eu.
Enchi-me d'animo e terminei assim:
«Meus senhores, tenho o prazer de lhes apresentar o carrasco.»
Houve um silencio profundo. Parecia que um d'estes tremendos cataclysmos, de que só a natureza tem o segredo, se desencadeára em torno de nós.