As resultantes, n'estas absurdas combinações de forças, são as catastrophes.
A escóla estacionaria, rigorosamente fallando, não tem doutrina sua. Existe, medra e espreguiça-se no seio d'estas convulsões sociaes, aceitando os principios da revolução, cujas consequencias repelle, e dobra-se, curva-se e sujeita-se ás conclusões da escóla retrograda, ao ultimatum da sua doutrina reaccionaria—simulando, aliás, um profundo horror pelos seus principios. Não é um systema esta evolução do seu procedimento—é um expediente, que vive da impotencia a que por mais d'uma vez as outras duas escólas se teem reduzido. E ha tanta verdade n'estes confrontos, que vemos os conservadores, arrastados pelo medo—terror panico dos espiritos timoratos e dos homens enriquecidos á sombra das revoluções—mergulharem até ao lôdo das escólas retrogradas, como em busca d'um local recondito e mysterioso onde possam esconder e occultar os seus haveres. O pavor produz estas allucinações. Como se o passado podesse encobrir o trabalho accumulado para o futuro!
Luiz Negro era um homem intelligente. Percebeu que eu queria levantal-o, alli, deixando a responsabilidade da sua profissão áquelles que lh'a deram, e que, em seguida, o desprezavam tambem.
Ergueu-se, olhou-nos a todos quando se achou de pé, e confesso que nos dominou.
O patibulo, que é um lugar elevado, deve ter fascinações e delirios deslumbrantes, como os teem os thronos, as eminentes funcções do estado, e a cadeira gestatoria dos pontifices e santos padres. Para alguma cousa deve servir estar mais alto do que os outros homens.
Foi n'uma montanha—rezam assim as piedosas chronicas do Nazareno—que Satanaz quiz tentar Jesus.
O carrasco, no meio de nós, fitando-nos a todos—com um olhar profundamente triste, que era o resumo d'uma existencia horrivel—possante, herculeo e espadaúdo como um gladiador dos circos da Roma pagã—era mais do que um homem: era um phantasma.
A alegria esvahiu-se. Era tão profundo e completo o silencio, que o zumbido d'um insecto qualquer ter-nos-hia parecido uma convulsão medonha no globo que habitamos.
Já a mim mesmo me reprehendia eu d'esta apresentação inopportuna.
Luiz Negro mediu-nos a todos com um olhar profundo e scintillante. Havia o que quer que era de feroz e sinistro nos primeiros lampejos d'aquella vista penetrante. Depois amorteceu-se. Em seguida as lagrimas rebentaram-lhe por entre as palpebras, a ferocidade diluiu-se-lhe n'aquelle imperceptivel chôro, e momentos mais tarde havia um olhar de mansidão e de ternura a expandir-se, com uma meiguice extraordinaria, por sobre nós.