Desapparecera o carrasco. Estava o homem.

«Metto-vos mêdo? Faz-vos pavor a minha presença? Não ha razão nem motivo para tanto. De mim sei dizer e posso assegurar que estou livre de odios e de ruins paixões contra quem quer que seja. Tenho no meu coração um thesouro inesgotavel de perdões—ainda mesmo para aquelles que me acarretaram os infortunios da minha vida.»

Continuava o silencio.

Luiz Negro proseguiu:

«Sou christão. Aprendi, portanto, a perdoar nas lições do Divino Mestre. Elle—que levantou a dignidade do homem com o seu proprio martyrio.

«Quebrou as algemas da escravidão do mundo antigo para implantar, na terra, a liberdade, a igualdade e a fraternidade—trindade augusta d'esta religião d'amor.

«Ao visconde hei de eu contar largamente a minha vida. Hei de dar-lhe a narração escripta do triste fado da minha existencia. Quem, como eu, só espera do sepulchro—da valla, direi melhor—o silencio e o repouso, não pretende nem quer illudir ninguem.

«Retiro-me. Sinto-me aqui de mais. Apavora a minha presença com o sinistro nome que me deram.»

Devo dizel-o: estenderam-se-lhe todas as mãos. Nem uma só houve, que se esquivasse a este signal de pura cordialidade com que os homens se buscam e apreciam.

Ao cerrar da porta, ouvi que me dizia: «Até ámanhã.»