O seu ultimo dia foi o oitavo de outubro de 1754. Tinha quarenta e oito annos.

Não alcancei noticia do destino que tiveram os filhos de Fielding. Pobres sei eu que ficaram, porque seu pai, dado que os amasse muito, ou lhes não grangeou, ou era já tarde quando lhes quiz grangear o patrimonio.

Fielding achou-se uma vez com 1:500 libras, e uma propriedade que rendia 200, no condado de Derby. Montou carruagem, phantasiou librés de côres claras, que se renovavam de mez em mez, hospitalidade de principe, lautos banquetes, saraus, caçadas, a mais fidalga e desastrada imprevidencia, consoante ás tradições de seu avô o conde de Denbigh, e de seu pai o general Edmundo Fielding. No trajecto de tres annos, não tinha um palmo de terra, nem um schilling do patrimonio de sua primeira mulher.

Depois, aceitou o lugar de juiz de paz, especie de commissario subalterno de policia. Collocado em circumstancias proprias ao intento, começou a estudar as ladroeiras e a perseguir os ladrões. No entanto, escrevia novellas; e, gravando em eterno bronze o Tom Jones, creou o romance em Inglaterra.

Se a experiencia lhe fosse mestra e inspiradora, poderia, como escriptor, reparar as perdas de fidalgo. Tom Jones foi pago por 700 libras, e Amelia por 1:000.

Ás alegrias da gloria do ouro, seguiram de perto os rebates da morte. A vida estava gasta nos proprios desperdicios. A alma, no maximo esplendor das suas faculdades, requeria coração vigoroso onde fecundasse as grandes aspirações. Como prova da sua immortalidade, o corpo deperecia, os pulmões deslaçavam-se, e ella entre as regiões infinitas e as tristezas do quasi moribundo, lampejava ainda os derradeiros clarões da Viagem a Lisboa, em que Fielding chorou e sorriu, mesclando aos impetos da satyra os mais desconsolados quebrantos da amargura.

Quando fordes ao cemiterio dos Cyprestes, attentai n'aquelle tumulo, pensai em tudo que é triste; mas não lhe rezeis pela alma, que essa está irremissivelmente condemnada. Henrique Fielding não era dos nossos, não era catholico. Que pena!

[26] Archivo Pittoresco, tom. III, pag. 140.


[MANIA E HYPOCONDRIA]