Certo maniaco imaginava que tinha morrido, e rogava aos parentes e amigos que o enterrassem, porque o seu corpo começava a apodrecer. Tres vezes, dentro d'um anno, o atacou semelhante mania. Amortalharam-no, e fingiram que o levavam ao cemiterio; porém, no caminho, estavam uns homens pactuados com os parentes á espera do sahimento; e, quando a tumba ia passando, começaram a dizer em voz alta:
—Ora graças a Deus, que morreu finalmente aquelle velhaco, aquelle biltre, aquelle perversissimo scelerado!
O maniaco, ouvindo os insultos, irou-se grandemente, e respondeu:
—Canalhões! se eu estivesse vivo, castigar-vos-hia a bengaladas, para vos ensinar a não ter má lingua; infelizmente estou morto; e os mortos não se vingam.
Replicaram os homens que não lhe tinham medo, e desafiaram-no renovando as injurias.
Então o maniaco, erguendo-se de golpe, desembaraçou-se da mortalha, e correu atraz dos homens, que o receberam a murros, e tantos lhes pregaram na cabeça que lhe pozeram fóra de lá a idéa que o atormentava.
O doente recolheu-se a casa bastante contuso; mas curado; e, porque havia tres dias que jejuava, comeu á tripa fôrra.
Este caso, e outro da mesma seriedade, vem referidos em um livro scientifico e mui circumspecto ultimamente publicado em França. É a Hygiene das dôres, por mr. A. Dobay. Os francezes, ao mesmo tempo que nos illustram, alegram a gente com estas passagens que não são vulgares entre os maniacos portuguezes.
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Um hypocondriaco farto e rico imaginou-se doentissimo, e resolveu nunca sahir do seu quarto. Dormia, comia e bebia como se quer; mas soffria horrorosamente por todo o corpo; devia morrer de morte affrontosa; estava ulcerado e gangrenado; pedia que o não atormentassem, etc.