Fez quanto pôde para se curar; consultou os somnambulos mais acreditados; encarapuçou-se com um barrete encerado; tomou banhos egypcios, e poz sobre o estomago uma cataplasma egypcia: tudo inutil. Depois experimentou o racahout, a revalenta, a mostarda branca, com igual resultado. A mostarda branca, que cura toda a gente, fez-lhe mal a elle. Por ultimo, e em recurso extremo, tomou preparados de ferro, de cobre, de ouro, bezoartos orientaes, o cachundé chinez, o talekamapala dos selvagens americanos, e nada de novo. Sempre doentissimo. Recorreu á escova electrica, ao restaurador da vida. Tudo em vão. Parece incrivel uma cousa tão verdadeira!

A conversação d'este sujeito versa sempre sobre o mesmo assumpto: a sua molestia. Se alguem consegue distrahil-o por momentos, esquece-se o homem dos seus atrozes flagicios.

Indo o medico visital-o uma manhã, queixava-se elle de que não podia estender a perna direita; e, para mostrar a difficuldade que sentia, estendia a perna.

—Então o senhor que mais quer?—perguntou o medico.

—Valha-me Deus, queria fazer isto!—e levantava a perna com a maior presteza e facilidade.

O medico desatou ás gargalhaadas; e o doente, cahindo em si, riu-se-tambem. Esta aventura distrahiu-o, e poz cobro ás lamurias.

D'outra vez, queixava-se ao medico de falta de appetite (comia como quatro), e de se estar marasmando.

Ora, o homem tinha tão boas côres e tão proeminente abdomen que o medico não pôde suster o riso. O doentinho, affrontado pela galhofa do medico, pediu explicações.

—Antes de lastimar-se, olhe para a sua barriga—disse o medico.

—É verdade!—disse pasmadamente o enfermo—é verdade! eu não tinha reparado.