Diga-se o que por diversos modos está repetido: os maus costumes são os primogenitos de Adão, e mais antigos que as novellas. A grande bibliotheca dos maus livros que estragaram o genero humano estava dentro da maçã ou do pêcego que Eva trincou. Póde ser que os romancistas desmoralisados, se os ha, sejam os pomareiros da arvore maldita; mas o certo é que hoje em dia, as descendentes da Eva paradisiaca, se o pomo lhes trava, depuram os labios nas faces dôces de seus filhos, e de sobra sabem que não é com tal fruta que se enganam os modernos Adões.
Estes reparos não desdouram as fortes e convictas idéas do snr. Senna Freitas ácerca da imprensa jornalistica e das litteraturas dramatica e romantica. O illustre sacerdote está no seu posto, e o sustenta com a maxima dignidade e superior talento.
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Como não sei quando terei tão bom azo de apontar a um assumpto que, de seu, me occorre n'este momento, pedirei aqui ao primeiro orador da tribuna sagrada em Portugal, o snr. conego bracharense Joaquim Alves Matheus que publique as suas orações ineditas. Se o divulgal-as redundasse meramente em gloria sua propria, não iria eu ferir com phrases de vulgar lisonja a modestia d'aquelle professor illustre; porém, se o proveito d'essa publicação reverte em lição para prégadores, em deleite para crentes, e secreto abalo para incredulos, a abstenção do snr. Alves Matheus é menos louvavel, e por nenhuma maneira conforme aos deveres que se alligam ao seu ministerio. O talento de quem converte em luz da alma o que outros obscurecem nas paginas dos livros santos, é mais de nós, os vacillantes á orla dos abysmos, que dos bemquistos da alta inspiração, e dos que, velejando nos escarceus da vida, tem no céo a estrella do seu norte, e na terra a dupla ancora da fé e da sciencia. Alves Matheus é o mais correcto e elevado orador que ainda ouvi. Conhece todas as vozes que sôam dentro da alma. Dá o terrivel estremecer do enthusiasmo no arrobamento das idéas grandes, e vibra as palavras gementes que abrem o dulcissimo espirar das lagrimas.
Theatro de Francisco Gomes de Amorim, socio da academia real das sciencias de Lisboa. O cedro vermelho. 1874. 2 tomos.—São livros de recreio e estudo estes dous que comprehendem o drama e as notas relativas. O snr. Gomes de Amorim empenhou poderosas faculdades de observação nos accessorios com que nos povôa a phantasia, a fim de que no tecido dramatico fuljam os fios reflexôres da luz local. O drama seria já excellente sem as notas; com ellas realça de valia, porque nos ensina particularidades que o poeta photographou, e o historiador desdenharia. Se tanto lavor e tamanha paciencia de consultação houvessem de ser embebidos no artificio do drama, e descurados como alheios da scena, o consciencioso escriptor teria a triste desillusão de se haver cançado á cata de leitores idoneos e juizes competentes do seu trabalho.
O Cedro vermelho, assignalado entre os mais applaudidos dramas que recordam noites gloriosas do theatro normal, pertence á escóla das peripecias fortes e commoventes. Impunham-se assombrosos aquelles lances de viver desconhecido do sertão da America. Francisco Gomes de Amorim chegára, poucos annos antes, d'essas paragens, por onde havia passado o portuguez aventureiro, o mercador, o chatim; mas por onde, desde que o jesuita fôra esponjado da civilisação do indio, nunca mais passára o talento observador. Por fortuna da arte e desfortuna do artista, Gomes de Amorim identificára-se aos costumes das raças, tacteára-lhes de perto o selvagismo, não tanto por seducções de curioso quanto pelo imperioso estimulo da necessidade. As lagrimas represadas talvez lhe abrissem no coração os traços que ahi ficaram como thesouro de lembranças,—e quem sabe se de saudades para elle e para tantos cujas illusões vão morrendo com o sol poente de cada novo dia!
O drama, executado por aquelles artistas apaixonados de ha dezoito annos, logrou arrancar da sua atrophia um publico sopitado pela toada das xacaras, e pela melopêa dengoza das castellãs, e raivas sacrilegas d'uns amadores quasi todos sarracenos, consoante a praxe dos dramaturgos archi-romanticos.
Tasso, que aceitára a parte do indio Lourenço, como quem crescia para as empresas arduas e se apoucava nas trivialidades de galã de vaudeville, arrebatava o auditorio, e o auditorio arrebatava-o nos braços, desde o palco ao seu camarim. Houve n'aquelles remotos dias correntes galvanicas entre o actor e a sala. A paixão coruscava no olhar d'aquelles interpretes a quem Epiphanio ensinára as fulgurações do terror, e, sobre tudo, a expressão da intelligencia.
Eu não direi que a arte de hoje arraste crepes ou esteja fria como o marmore de Gil Vicente na cupula do seu templo.